1966
23 de Dezembro
Sexta-feira, 13h00
Estou brutalmente
desesperado. Todo o dinheiro que hoje recebi do pré apetecia-me gastá-lo de uma
só vez, para esquecer por algum tempo a angústia que avassala o meu espírito. O
avião que chegou esta manhã trouxe correspondência para todos, menos para mim.
Estou tão desesperadamente magoado que, se não fosse efémero este sentimento,
não escreveria mais para ninguém.
Ainda estamos na parte da manhã e ouço
dizer que à tarde vai chegar um avião militar, vindo da Madeira com correio
proveniente da Metrópole, que não chegou ainda porque teve paragem em
Cabo-Verde para carregar, igualmente, correspondência.
Felizmente o CTIG,
(Comando
Territorial Independente da Guiné), dá toda a prioridade à distribuição da
correspondência. Este é um dos dias da semana em que chega a haver três
entregas de correio. Mal chegam os aviões, a correspondência é imediatamente
distribuída pelas unidades, depois de separada pelo SPM, (Serviço Postal
Militar),
e daí entregue ao pessoal por diversos meios. Para dar um exemplo: se os
endereçados estão ausentes em repartições na cidade, um jipe da unidade chega a
percorrer dezenas de quilómetros para a entregar em mão; se no ‘mato’, em operações, é entregue por
helicóptero, avioneta, ou outro meio de transporte aéreo.
Neste caso concreto, um avião comercial da
TAP, de transporte de passageiros, deixou o correio na Madeira e logo um avião
dos TAM, (Transportes Aéreos Militares), de transporte de militares, entre outros
carregos, acarreta com ele até ao destino.
O inquestionável aerograma, também conhecido por «bate-estradas»,
como meio de comunicação escrita
dos militares
Este correto procedimento, é uma parte da
psicologia militar para elevar o moral das suas tropas, pois que: a família,
com todo o seu agregado; os amigos; as namoradas e as tão famigeradas Madrinhas de Guerra, instituídas pelo Movimento Nacional Feminino, são
componentes de uma estrutura social explorada pelo mecanismo da guerra para
assegurar a estabilidade emocional dos seus guerreiros combatentes. A
comprová-lo está ainda a criação dos «bate-estradas»,
os não menos famigerados aerogramas,
e do seu incontestável préstimo, também eles instituídos pelo MNF.

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