1967
03 de Outubro
Terça-feira, 12h00
Pela primeira vez,
aqui, a Polícia Militar “marrou”
comigo.
Ontem, quando ia
para o cinema mais o camarada Torres, um polícia militar chamou-me de parte e
começou logo a escrever. Pensei que fosse por causa do bigode que deixei
crescer e comecei a usar. Mas não. Foi por causa do colarinho da camisa estar
num péssimo estado.
Felizmente que encontrei, nesse instante,
um camarada amigo que se dava bem com eles e a participação ficou sem efeito.
O pior que as camisas têm são de facto os colarinhos e as
camisas da tropa, infelizmente, não são exceção. Digo infelizmente, porque eu
sou uma desgraça a gastar colarinhos por causa da densa barba na zona do
pescoço. Por este motivo, e já há algum tempo, solicitei duas camisas novas, (digo novas porque
há camaradas que lhes é dado peças de fardamento já usadas), à secção de fardamento
da minha Companhia e a resposta que me deram foi que não havia. Até haver,
tenho que me remediar com as que tenho, disfarçando com pontos aqui e pontos
acolá, com o «jeitinho» que eu tenho
para isso.
É muito normal verem-se militares, principalmente os «sem
patente», com a roupa bastante coçada e até rota de tanto ser usada e lavada.
Pela falta de jeito, os cuidados na lavagem não são muitos
e a inexistência do ferro de engomar, para não falar da roupa lavada pelas “nharras”, que a esfregam com pedras até
desaparecerem as manchas, contribuem para um desgaste mais rápido. Conheço
camaradas que, a expensas das famílias mais abonadas, a mandam vir da
Metrópole. Há Companhias que regressam do ‘mato’
todas esfarrapadas e assim embarcam para a Metrópole.
Esquecendo este inesperado incidente vou continuar no
seguimento do terceiro parágrafo deste capítulo sem, contudo, deixar de referir
que a entrada principal desta casa de espetáculos, já referida em capítulo
atrás, se faz pela Avenida da República e aqui se junta toda a malta e maralha
na parte descendente do passeio; o oficialato e as suas esposas na parte de
cima − há uma nítida
divisão, entre uma parte e a outra, constituída por um vazio, a meio − e, não raras vezes, o espetáculo começa aqui, no lado de
baixo, com as ‘tiradas’ da rapaziada
olheira que fica agitada não pela presença dos seus superiores, que deles
estamos todos fartos, mas pela presença das saias, algumas bem travadas,
ajustadas à curva das ancas e outras plissadas ondulantes sobre as coxas, que
denunciam ali estar, meio escondidas, um bom par de pernas peladas e macias
blusas de seda, cintadas acima da cintura, com golas de renda e folhos
multicores a debruar espaventosos decotes: uns recatados, outros mais
arrojados, realçando seios empinados e exuberantes a extravasar de todos aqueles
acessórios tufados que a argúcia penetrante do olhar e da imaginação destapa,
devassando aqueles corpos, a transbordar das suas vaporosas vestes, desnudados de
peles níveas, umas mais coradas, outras morenas; morenaças de cabelos negros;
louraças de pele rosada e ruivas sardentas de olhos doces; umas anafadas,
outras esterlicadas, outras assim-assim e alguns camafeus arrebicados: “piriquitas”, algumas delas acabadinhas
de chegar da Metrópole e, então, a PM está bem à vista, em pose intimidatória,
toda emproada, aperaltada com as suas polainas, as suas braçadeiras, bastões e
capacetes brancos que só lhes falta os penachos para parecerem uns pavões. Nas
estreias, em que é prevista mais afluência, chega aqui ver-se as polícias dos
três ramos das Forças Armadas. Sendo certo que muitos nem sequer têm bilhetes
para entrar se juntam aqui para somente gozarem o panorama e levarem que contar
para as mesas dos cafés, havendo, até, situações em que a malta é enxotada
daqui-para-fora e ser obrigada a formar fila com superior a manter a ordem,
designado por qualquer chefia presente, e entrar por uma porta estreita − “a porta do cavalo
de John Wayne”, como lhe chamávamos − virada para uma
rua lateral a Sul.
O espetáculo, em questão, era uma peça de teatro intitulada
«A Conhecida Alzira», com Manuela Maria, Armando Cortez e Francisco
Nicholson. Estes atores do Parque
Mayer andam em tournée pelo
Ultramar, incorporados na denominada «Caravana
da saudade», a atuar para as Forças Armadas.
Continuando ainda, disse que comecei a usar um bigode e
devo referir que para isso é preciso pedir uma autorização. Esta autorização é
solicitada por requerimento ao comandante da Companhia e, vou faze-lo de
imediato, antes que seja interpelado e fique ‘à pega’ com a PM ou até por um superior, pois que a ostentação de
um bigode, barba ou pera, é entendido pela hierarquia como
uma manifestação de superioridade, coisa que o soldado está coibido de ter.¹
A minha namorada não me tem escrito. Pudera! Estará a refletir?
Em contrapartida, escreveu-me a «Malaguenha»
uma carta muito cheia de ternura.
Esta «Malaguenha»
é uma correspondente do sul de Espanha, da cidade de Málaga, que já falei no
capítulo anterior; a tal que ficou muito zangada por não ter respondido a uma
sua primeira carta.
Tenho passado os dias razoavelmente bem. O problema é
sempre o mesmo; a falta de dinheiro. Ainda não recebi, da Metrópole, o dinheiro
que estou à espera.
Presentemente ando a fazer um retrato de um camarada, para
oferecer à namorada, que vale 100 escudos.
Não tenho feito nada de desenho de construção civil. Apesar
de dispor de mais tempo, muitas vezes, depois de estar saturado de um dia de
trabalho, falta-me ânimo.
O amigo Jorge Guimarães foi de férias à Metrópole e ficou
de passar pela casa dos meus pais para lhes dar, em mão, notícias minhas.
Enquanto espero que o meu camarada apareça com o almoço,
vou continuar a trabalhar no retrato. Espero que a marmita apareça depressa com a “bianda”,
pois estou com uma fome de cão.
A meio da manhã
aconteceu-me algo de caricato e insólito.
A secção tem, arrumado a um canto, um velho frigorífico,
roto e ferrugento, aonde todos nós guardamos bebidas e coisas de comer. Para acabar com o resto de leite condensado que tinha numa
embalagem de lata, já aberta, meti-a à boca, inclinei a cabeça para traz para
sorver, e, ai que sinto uma coisa áspera e espessa a escorregar pela garganta
abaixo. Ainda meti os dedos à boca, a tentar puxá-la pelas compridas guias, mas
já não fui a tempo. A barata, que era das grandes e gorda com certeza,
escorregou pela goela abaixo e foi naufragar no estômago, acabando, naturalmente,
por seguir o trajeto final.
Calhando, como
dizem os compadres, é ela que me está
roendo as paredes do estômago e me provoca esta fome.
O que mais por aqui há na secção é bicharada desta e ratos.
Há dias até um sapo aqui andava, mas isto foi brincadeira de um camarada. Todo
este mobiliário é muito velho. O chão, sendo de cimento, está cheio de buracos de
tão gasto que está. Todos os Domingos de manhã somos escalonados para lavá-lo
mas os armários não são arrastados por estarem atafulhados de papéis e, por
isso, muito pesados com o risco de se desconchavarem todos.
Quando é preciso vasculhar no meio de toda esta barafunda
de papéis, à procura de qualquer processo que, quase sempre, não se encontra,
começámos todos a espirrar e a coçar-nos da poeira e dos microrganismos
empapados pela humidade nas resmas de pastas e mais pastas tendo, por mais que
uma vez, no meio destas, encontrado ninhadas de ratos.
¹ [Neste tempo, ainda
fazia parte das boas regras da educação e obediência o filho pedir licença ao pai, para ostentação destes ataviamentos capilares.]
22h00
Esplanada do Café
Avenida
… é pá, viram ontem todo aquele mulherio a bufar pró ar a
fumaça dos “Extra Longo”. Algumas até
afilavam o beiço para cima e faziam aneizinhos que até pareciam que estavam a
mandar sinais de fumo prós índios.
– prós índios olheiros!
– É por isso que quando batemos à porta do MNF só nos calha Português Suave. E quando calha!
– As ladies do MNF
e da CV, também lá estavam todas
espaventosas com os seus “King Size” e
“Lucky Strike” entre dedos, a
fazer estilo.
– É pá, e que mulherio! Estavam em grupinhos, ali e acolá,
todas a bichanar, mas não estavam sozinhas. Ai não estavam não! Havia muito
olho nelas, oh se havia!
– Estão muito bem guardadas!
– Nem por isso. Há quem se gabe, enquanto os heróis andam a
malhar com os c… no mato.
– Quem saracoteava muito animada de montinho em montinho a
sacudir os quadris, toda rechonchuda, cheia de laçarotes, atenções e olhares
libidinosos, também a chupar o seu “Extra
Longo”, era a fanchona do nosso hortelão.
– E essa devia estar
desamparada. Não se viu por lá o major com o olho nela. Deve ter ficado a
guardar a horta dos gambozinos. É que de dia enquanto ele amanha a terra e
planta as couves, a mulher anda a laurear a pevide de rabo tremido pela cidade
com o impedido às ordens e à noite, enquanto ela vai ao cinema, ele vê crescer
à luz do luar os mimos da horta.
– É pá, a gaja
apesar de cinquentona e feia que nem uma bota da tropa ainda marchava.
– Ai não que não marchava, não! Mas qual cinquentona?
Aquilo ainda não chegou aos cinquenta, pouco deve passar dos quarenta. Aquela
focinheira cheia de pelo e aquele cortiço desengonçado é que a fazem mais velha,
mas aquilo quando era novinha, roliça e pequenina, assim maneirinha como a
sardinha, devia ser cá uma truta!
Abruptamente interrompe um manguelas, com ares de
intelectual apatetado, que estava a falar na mesa ao lado com outros
songamongas sobre os atores e a peça de teatro:
– Que relambório é esse praí, pá?
– Quando era novinha, roliça e pequenina... quando era
novinha, roliça e pequenina, ainda nem sequer o germe que nos havia de botar ao
mundo bailava nos c… daqueles que vieram a ser os nossos progenitores.
– Vocês são uma cambada de estafermos maldizentes e
despudorados! O vosso tema de conversa é sempre o costume. Instruam-se, pá! Tenham maneiras!
– Olhem-me a lábia deste finório, cheio de
intelectualidades e moralidades, olha! Lá porque estavas lá todo apinocado no
lado dos finos, fardado à civil, estás também agora armado em fino com todo
esse parlapiê! Já que estás pr’aí com
essa lengalenga, aonde é que bailava o micróbio que te germinou, se pertences
à prole dos que têm averbado na caderneta «filho de pai incógnito»?
– Se o ‘pescas’
estivesse agora aqui a ouvir o vosso paleio, estavam todos ‘à pega’.
– Quem é esse gajo, pá?
– Oh! Quem é esse gajo! Esse gajo, é o Peniche.
– O impedido do «major da horta»¹, c’agora anda a ensinar a madama a guiar?
– Esse mesmo!
– Olhem, mas que gabiru! Esse é que não sabe quem é o pai
dele.
– Nem o pai, nem a mãe que o pariu, nem a terra onde caiu! Peniche é a terra aonde esteve engaiolado e a tropa o filou pra vir prá
guerra.
–... É pá, mas vocês haviam de vê-la, desvairada, de buço
empinado e de braços alçados, agarrada ao volante do jipe, sentada com aquele
rabo gordo no meio das pernas peludas do ‘pescas’
e aquele avantajado par de tetas arrebitadas amparadas por um soutien de
tamanho grande e pelas manápulas do ‘pescas’
de tamanho xxl que, igualmente de queixo afincado, ora sobre um ombro da matrona, ora sobre o
pescoço no caminho para o outro ombro, ao jeito dos solavancos e do esfregar de
pernas do embraia, trava, acelera, finge segurar o volante.
– É pá, o gajo anda a montá-la à maneira.
– É pá, mas que palanfrório, ela tem idade para ser mãe do
gajo.
– Olha, o gabiru que é, nem que tivesse idade pra ser avó!
Na outra mesa, um songamonga picado das bexigas e com cara
de depravado, ao lado do gajo com ares de intelectual apatetado, intromete-se
com trejeitos faciais e a babar-se todo.
– É pá, oiçam a prosa, que estou pr’aqui a engendrar, entre
embalos, sacudidelas e solavancos do jipe.
E, então, começa o prosador com a sua desbocada narrativa:
– Sussurra-lhe ele de mansinho, com aquela voz melosa que é
característica do gajo, com o queixo a coçar-lhe a nuca no caminho, ora para
uma orelha, ora para a outra:
– Então vamos lá embraiar.
– Embraiar, como?
– Assim! Com esta perna, carregue a embraiagem até ao
fundo.
– Ai, até ao fundo! Ai, que não chego aos pedais!
– Estique as pernas.
E, agarrando-lhe a perna com a calosa mãozorra esquerda,
auxilia-a, subtilmente, no movimento para baixo, arrastando disfarçadamente a
barra da saia para cima.
– Ai, mesmo assim, mal chego!
– Afinque-se ao volante e entese mais as pernas.
E, sem forçar o gesto, a barra da saia sobe mais uns
centímetros expondo aos olhos revirados do salafrário, de penca fincada sobre o
ombro da matrona, a liga rendada da meia de vidro − aqui, um pacóvio alabregado a piscar os olhos enviesados, aproveita
a deixa e atira pró ar: − «daquelas de Baiona que chegam dos pés até
às bordas da… comprem, comprem meninas, comprem» − puxada prá
virilha pela presilha do cinto de ligas, e mais uns escassos centímetros de pele
nívea que traem um par de pernas roliças, suculentas e peludas.
– Ai, que escorrego!
– Aguente aí que é serviço, eu empurro-a prá frente. Agarre
a alavanca.
– Qual alavanca?
– Esta coisa aqui comprida, com a maçaneta.
– Ai, que coisa rija, morninha e aveludada! Meto a
primeira?
– Sim, meta.
– Custa a entrar! Arranha!
– Pudera não arranhar, meteu a marcha atrás!
– Ai, a marcha atrás!
– Siiim!
– Ai, que arranha muito! Meto a segunda?
E o labrosta já perdido:
– Meta a segunda, meta a terceira, meta todas duma vez, que
eu meto tudo logo à primeira.
Com o queixo do gabiru a pressionar-lhe a nuca, ela geme ao
sentir um bafo quente e húmido, cada vez mais ofegante, carregado de odor a
tabaco e bagaço, expelido entre dentes, com sussurros libidinosos, a
penetrar-lhe os ouvidos:
– Acelero?
– Acelere devagar, devagarinho, acelere mais, mais… prego a
fundo.
– Ai, ai… ai que eu morro. Ai, o muuuuro!
– Que muuuuro?
– Ai, ai… ai o c… do jiiiipe! Estou f… pá!
No meio de risadas de escárnio e trejeitos
lascivos, irrompe a rosnar um emplastro serôdio.
– Estás à pega, Peniiiiche.
Outro pancrácio com olhos de gaseado, finaliza.
– É pá, este chanfrado dos c… além de depravado é um sádico
do c…
Uma de muitas destas conversas de palavreado grosseiro à
mesa dos cafés num corrupio de: um diz, logo outro afirma; um intromete-se,
logo outro interrompe e atalha. E assim por diante, só terminando com a
debandada da obscena e desbocada comandita.
_______________
¹ [Alcunha que lhe assentaram
por deixar tudo e, pelo visto, até a mulher, para se ocupar do amanho da horta
no quintal da sua residência.]
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