1967
18 de Dezembro
Segunda-feira, 19h00
Secção. Desde o começo da tarde que me tenho sentido mal disposto. Cálculo que seja do excesso de tabaco. Eu fumo muito. Todos na secção fumam muito. Os outros também fumam muito. Toda a gente fuma muito. Este cheiro pestilento que, anda espalhado no ar, está entranhado na cal destas paredes, nas papeladas empilhadas nas prateleiras, na roupa e no corpo, à mistura com este clima, quente e húmido, causa-me náuseas, tonturas e mal-estar.
Hoje um avião d0s TAP, fretado pelo CT, trazendo e levando tropas também trouxe e levou correio.
Recebi correspondência do meu amigo Fernando e um postal de
Boas-Festas da enfermeira Palmira. Mas, correspondência de quem mais gostaria
de receber, não recebi.
Ontem, às nove horas e meia, houve uma formatura geral para a distribuição das prendas de Natal oferecidas pelo Movimento Nacional Feminino. Uma pobreza franciscana! Foi-nos entregue, pessoalmente, pelas mãos de duas senhoras deste movimento, um álbum que deveria servir para colocar fotografias e dez aerogramas de Boas-Festas.
Ontem, às nove horas e meia, houve uma formatura geral para a distribuição das prendas de Natal oferecidas pelo Movimento Nacional Feminino. Uma pobreza franciscana! Foi-nos entregue, pessoalmente, pelas mãos de duas senhoras deste movimento, um álbum que deveria servir para colocar fotografias e dez aerogramas de Boas-Festas.
As senhoras de volumosas cabeleiras oxigenadas, ambas baixotas e
anafadas, identificadas por uma braçadeira azul e as letras MNF brancas,
acompanhadas pelo staff do oficial de dia, corriam envoltas por entre fileiras,
uma atrás outra à frente; uma, a mais repolhuda, carregando as oferendas;
outra, a mais alisada com sorrisos adoçados, distribuindo-as. Os praças, já de
si pobres e mal-agradecidos, recebiam-nas de beiça arreganhada, torcendo o nariz que muito contrafeitos
as aceitavam e outros que, não podendo arredar-se da formatura, à surdina,
entre dentes, chispando palavrões, lhes arremessavam trejeitos de escárnio e as
despachavam, ordenando-lhes: arreda, arreda; adiante, adiante!
Houve camaradas que trocavam o seu álbum por uma cerveja o
que, à partida, constituía um bom negócio, para quem dele se desfazia. O meu
serviu para colar uns selos que pr’aqui tinha mais de natureza artística que de
coleção.
Também, não sejamos assim tão «pobres e mal-agradecidos»!
Há que fazer jus à sua ação! Há que render preito e homenagem às gentilíssimas
damas! Tem mais valor o gesto e o carinho que nos é dispensado pelas mulheres
deste movimento que os próprios objetos em si, mas todos sabemos quem recebe
umas canetas Parker 21; uns isqueiros Ronson; uns pacotes de maços de tabaco
Marlboro, Extra Longo King Size, Lucky Strike e também uns "scotchs"; etc., etc.
Hoje, enviei um destes aerogramas que recebi, para o senhor
pároco da minha terra, a desejar-lhe Boas-Festas e com o pedido de, em uma das
suas homilias, ler aos paroquianos, meus conterrâneos, a seguinte mensagem:
Ao estimado povo de Riba d’Âncora. Venho por este simples e
humilde meio, através do nosso Pároco, desejar a todos vós um santo Natal muito
feliz e alegre com o nascimento do Filho de Deus e um Novo Ano cheio de todas
as venturas divinas e terrenas. São estes os votos sinceros de um filho desta
Igreja e desta terra que no Ultramar – Província da Guiné Portuguesa – defende
a integridade da Pátria.
Deus que está em toda a parte, eu daqui
Lhe peço, – pedi-Lhe vós, daí também, – que o flagelo da guerra termine
depressa, para que todos os soldados voltem aos seus lares e passem o próximo
Natal mais feliz e mais alegre na companhia de todos os seus entes queridos
De todos vós me despeço com um saudoso e
terno abraço deste vosso filho cristão que se chama e assina. (…)¹
Enviei as Boas-Festas para todos os meus amigos e
conhecidos que, acredito, a maior parte deles não retribuirão por,
provavelmente, já não se encontrarem nas suas moradas e andarem, também eles, «a palmilhar Portugal de lés-a-lés com as
botas da tropa nos pés»: alguns deles já por aqui a dar o corpo às balas,
na defesa do Império.
Ontem, o segundo-sargento Laurentino teve um acidente com a
sua lambreta, quando se deslocava para a secção. Está no hospital e dizem que
está num estado muito grave.
O sargento Laurentino é de cor, natural de Bissau, e não é
por ter acontecido o que lhe aconteceu que eu digo que é uma excelente pessoa.
¹ [Vim a saber, algum tempo depois da minha desmobilização,
que esta mensagem não foi lida. Ou talvez o aerograma não fosse recebido.
Mais tarde, das muitas vezes que falei com
o pároco, nunca tive a coragem de lhe perguntar.]
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