sábado, 14 de outubro de 2017

A tropa manda desenrascar


1966
06 de Dezembro
Terça-feira, 22h00

   E

stou de serviço e, por isso, não pude sair. Este serviço, que se chama de Ronda Ambulante, como revela o nome, consiste em andar à volta do quartel, durante três horas seguidas, vestido com farda camuflada e munido de uma G3¹.  
Calhou-me o turno das três às seis horas da madrugada. 
       O capitão que estava de serviço a oficial dia implicou comigo, por não ir fardado a preceito para a ronda, comentando que não estava digno de ser acompanhado da Gertrudes¹.
Ainda não me tinham distribuído um equipamento camuflado e como «a tropa manda desenrascar», tive de me valer dessa arte, pedindo um emprestado.
Tudo tem corrido bem, até aqui. Sinto-me bem no meu trabalho e por isso colaboro o mais que posso sentado a uma secretária com a minha «Gertrudes, uma máquina de escrever que, àquilo que tenho visto, não sendo das mais modernas, também não é das mais antigas, a dactilografar: fichas e boletins; ofícios e circulares; cartas e requerimentos; etc., etc.  
Antigo, antigo é o mobiliário que será do tempo da “guerra do Raul Solnado”. 
O que mais me incomoda, é calcorrear para baixo e para cima, no vai e vem do almoçar e do jantar. É uma complicação para arranjar transporte e muitas vezes faço, este percurso de cerca de dois quilómetros e meio, a pé.
Felizmente que recebi hoje um par de sapatos que mandei vir de casa. Com as botifarras da tropa e este calor, quando me vou deitar, tenho os pés e as pernas numa lástima.  

Rompi, subitamente, com o amor da minha namorada. As suas cartas não dizem nada. As suas palavras escritas não são confortáveis nem contêm qualquer laivo de sensibilidade ao meu sofrimento e solidão.

Recebi o meu primeiro salário de 508 escudos. Paguei o que devia. Emprestei algum a camaradas amigos e comprei uma biografia, de Rembrandt, para ler. Gosto muito deste tipo de literatura, por relatar a vida de grandes mestres da pintura. Estou com a leitura ainda no princípio e tenciono comprar toda esta coleção que se chama; «Romance e Vida». O pior é que já estou quase sem vintém e tenho de pensar nas despesas diárias: a bica, mais que uma por dia; a cerveja, também; as idas ao cinema, mais que uma ou duas vezes por mês; o tabaco, dois maços e às vezes quase três por dia; etc., etc.
Quanto ao tabaco, não é que fume os cinquenta ou sessenta cigarros por dia. Mas os cravas! Cigarro a um, cigarro a outro e os cigarros lá se vão. Não os censuro. Eu também, quando estou liso, cravo um a este, outro àquele… É assim, esta vida de militar: «um por todos e todos por um».

Trabalho de esplanada sobre página de livro. Retrato de camarada

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¹[Espingarda metralhadora, de origem alemã, − produzida em Portugal, sob licença, na FMBP, (Fábrica Militar de Braço de Prata), e por nós acarinhada de «Gertrudes», mas nunca soube a origem do nome. Deduzi que talvez por ser a companheira fiel de todas as horas do guerreiro combatente.





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