1966
06 de Dezembro
Terça-feira, 22h00
E
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stou de serviço e,
por isso, não pude sair. Este serviço, que
se chama de Ronda Ambulante, como
revela o nome, consiste em andar à volta do quartel, durante três horas
seguidas, vestido com farda camuflada e munido de uma G3¹.
Calhou-me o turno das três às seis horas
da madrugada.
O capitão que estava de serviço a oficial
dia implicou comigo, por não ir fardado a preceito para a ronda, comentando que não estava digno de ser
acompanhado da Gertrudes¹.
Ainda não me tinham distribuído um
equipamento camuflado e como «a tropa
manda desenrascar», tive de me valer dessa arte, pedindo um emprestado.
Tudo tem corrido bem, até aqui. Sinto-me
bem no meu trabalho e por isso colaboro o mais que posso sentado a uma
secretária com a minha «Gertrudes, uma
máquina de escrever que, àquilo que tenho visto, não sendo das mais modernas,
também não é das mais antigas, a dactilografar:
fichas e boletins; ofícios e circulares; cartas e requerimentos; etc.,
etc.
Antigo, antigo é o mobiliário que será do
tempo da “guerra do Raul Solnado”.
O que mais me incomoda, é calcorrear para
baixo e para cima, no vai e vem do almoçar e do jantar. É uma complicação para
arranjar transporte e muitas vezes faço, este percurso de cerca de dois
quilómetros e meio, a pé.
Felizmente que recebi hoje um par de
sapatos que mandei vir de casa. Com as botifarras da tropa e este calor, quando
me vou deitar, tenho os pés e as pernas numa lástima.
Rompi, subitamente, com o amor da minha namorada.
As suas cartas não dizem nada. As suas palavras escritas não são confortáveis
nem contêm qualquer laivo de sensibilidade ao meu sofrimento e solidão.
Recebi o meu primeiro salário de 508
escudos. Paguei o que devia. Emprestei algum a camaradas amigos e comprei uma
biografia, de Rembrandt, para ler. Gosto muito deste tipo de literatura, por
relatar a vida de grandes mestres da pintura. Estou com a leitura ainda no
princípio e tenciono comprar toda esta coleção que se chama; «Romance e Vida».
O pior é que já estou quase sem vintém e tenho de pensar nas despesas diárias:
a bica, mais que uma por dia; a cerveja, também; as idas ao cinema, mais que
uma ou duas vezes por mês; o tabaco, dois maços e às vezes quase três por dia;
etc., etc.
Quanto ao tabaco, não é que fume os
cinquenta ou sessenta cigarros por dia. Mas os cravas! Cigarro a um, cigarro a outro e os cigarros lá se vão. Não
os censuro. Eu também, quando estou liso, cravo
um a este, outro àquele… É assim, esta vida de militar: «um por todos e todos por um».
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| Trabalho de esplanada sobre página de livro. Retrato de camarada |
__________________
¹[Espingarda
metralhadora, de origem alemã, − produzida em
Portugal, sob licença, na FMBP, (Fábrica Militar de Braço de Prata), e por nós acarinhada de «Gertrudes»,
mas nunca soube a origem do nome. Deduzi que talvez por ser a companheira
fiel de todas as horas do guerreiro combatente.

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