quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Felizmente que não houve azar



        1966
11 de Dezembro
Domingo, 22h00 



Estou no café Avenida, na companhia do camarada Faria Silvestre. Tencionamos de seguida ir ao cinema ver o filme «Adorável Júlia»; uma comédia com Lilli Palmer e Charles Boyer.
      Estou sem vintém. Aliás, tenho um vale dos correios de 500 escudos que recebi dos meus pais mas estou a evitar de os levantar porque senão depressa ficam feitos em trocos. O meu camarada terá que me abonar o bilhete.
Recebi duas cartas da minha namorada, na Sexta-feira. Suplica-me para lhe continuar a escrever e a amá-la. Na carta que, brevemente, lhe vou escrever, dir-lhe-ei que nunca deixei de a amar.

No último dia que estive de serviço não cheguei a fazer a Ronda. O turno anterior, da meia-noite às três horas, não me foi acordar, ou seja; não acordou o turno que o rendia. Provavelmente, também eles ficaram a dormir. Felizmente que não houve azar. Uma encrenca destas pode dar direito a ficar “à pega” com uma “porrada” de todo o tamanho e ir-se malhar com os ossos no mato.

        Tenho trabalhado alguma coisa em desenho e hoje fiz um trabalho de cartões de boas festas, para um sargento.
        Neste momento ando a ler uma biografia de Leonardo da Vinci que retrata a sua vida artística e a relação conflituosa com os Médicis, senhores de Florença e patronos das artes. Aliás, ando a devorá-la porque a leitura já está quase no fim.
       Estou impressionado com o legado deste génio à humanidade.


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