terça-feira, 24 de outubro de 2017

Ele tinha vantagem, por ser alfacinha


        1967
         10 de Fevereiro
 Sexta-feira, 21h00 



 
Estou na caserna sentado  num caixote a escrever este diário sobre a mala da roupa.
        Não saí para começar a fazer o retrato a pastel, pela fotografia, da mulher de um camarada, colega de trabalho. Entretanto parei, para espairecer e ir ao barbeiro cortar o cabelo. Ele não pôde cortar-mo, por estar na hora de partida para ir ao cinema.
Tenho aqui de anotar, com grande alegria, o reencontro de um grande amigo de Lisboa, dos tempos da nossa juventude, que já não via vai para uns 0it0, ou mais, anos. Mal o reconheci por estar muito magro. É furriel e, encontrei-o por acaso, quando passava pela secção aonde trabalho.
Neste mesmo dia, à noite, fomos jantar, ao restaurante, frango assado e falámos muito sobre as nossas vidas passadas de quando éramos garotos e da guerra que fazíamos por causa das miúdas. Saíamos juntos e voltava-mos, quase sempre, separados. Ele tinha vantagem, por ser alfacinha. Eu perdia-a, por ter vindo das berças, de modos abimbalhados, ainda a cheirar a estrume. Belas recordações da nossa adolescência.  
Foi o primeiro amigo, lisboeta, que conheci quando cheguei a Lisboa, − capital do Império − com os meus treze anos, vindo da parvalheira, como se dizia por lá.
O meu Pai morava num quarto independente alugado em casa dos pais dele, num prédio antigo na encosta Ocidental da colina do castelo de São Jorge, Freguesia de São Cristóvão, com uma janela de uma lida e espetacular vista sobre a Praça da Figueira, Rossio, Restauradores; em frente, as ruínas do Mosteiro do Carmo; à esquerda, ao fundo, o Tejo com os cacilheiros a fazerem a travessia para a outra banda, o Terreiro do Paço e toda a Baixa Pombalina¹. 
Tem nove meses de Guiné e vai partir, de avião, para a Metrópole gozar um mês de licença.
Pedi-lhe o favor de ir ter com a minha família, o que me prometeu com grande alegria, para lhes contar notícias minhas e a tranquilizar.
 Confesso que tive uma grande alegria em o ver. Vamos encontrar-nos mais vezes, se Deus quiser.

Hoje recebi correspondência da minha namorada, dos meus pais e do meu irmão do meio. Os meus pais dizem-me, no seu aerograma, que já receberam a pensão de 360 escudos que lá deixei. Vamos ver se consigo governar-me com os parcos 148 escudos que cá recebo mais os ganhos dos meus desenhos.

Esta semana, não escreverei à minha namorada. Espero carta sua, com uma resposta, ao longo romansório que lhe enviei.
Ela faz anos no próximo dia 22. Não sei bem que prenda lhe oferecer. Vou aguardar pela sua carta e depois logo verei.
A semana passada, ouvi pela rádio um disco que ela me dedicou. A música era: o «bailinho do nosso amor». Gostei, por ser ela a dedicar-mo, mas, confesso, não é a minha música de eleição.

Tenho trabalhado bastante nos meus desenhos artísticos e tenho ganho uns ‘patacões’ como cá se diz.

Veio hoje trabalhar para a secção um furriel.
O chefe da secção é o capitão Campos e tem muito apreço por mim por eu ser uma pessoa aplicada ao trabalho. Queira Deus que esta estima se conserve até ao fim.
O capitão é uma pessoa com uma postura muito caricata. É baixote, com uns grandes óculos de aros e lentes muito grossas, os calções muito puxados para a cintura e rabo muito empinado, tipo prateleira.
        Ao caminhar, por ser curto de perna, estica mais o passo, dá a impressão de andar aos saltinhos e então alcunharam-no de ‘pardal sem rabo’. Uma alcunha mesmo a propósito. Mas é boa pessoa. Parece-me mesmo boa pessoa. Trata todos por filho. Ó filho, isto! Ó filho, aquilo! …

Tudo tem corrido bem e parece-me que até estou a notar em mim outro otimismo. Não obstante, há dias em que ando bastante enervado e aborrecido. Sinto nestas crises mau humor e uma certa dose de antipatia, por não morrer de amores, pelos camaradas de raça negra. Mas eles estão na terra deles.
 Como éramos
     
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¹ [A esta janela perdia horas a fio debruçado sobre ela nas madrugadas de insónia de lágrima ao canto do olho quando as saudades da terra apertavam. Deslumbrado, extasiava com as luzes dos candeeiros e dos reclames luminosos de néon a faiscar às cores sobre os telhados da baixa lisboeta; o rilhar dos carros elétricos a dobrar a Praça da Figueira para o Poço do Borratém e o brado dos pregoeiros com os seus pregões matinais, logo de manhãzinha cedo: «ó fava-riiica!»; «quem quer figos quem quer almoçaaar!»; os ardinas de calças remendadas arregaçadas e de saco a0 tiracolo carregando os jornais da manhã, a correrem descalços pelas ruas e becos: «ó século ó diário, traz a bola ó desportiiivo!»; as varinas apressadas de canastra à cabeça sobre uma rodilha, de entremeio, bordada com enfeites coloridos, briosas dos seus trajes bairristas e chinelas floreadas, a condizer, na mão para aligeirarem o passo não vá a concorrente adiantar-se: «ó vivinha da cooosta… venha cá, ó freguesa!». As saudades dissipavam-se, as lágrimas mirravam. De memória ainda fresca do marasm0 da aldeia, dizia eu muitas vezes para o meu Pai: − Ó Pai, Lisboa parece que está sempre em festa!      
Do varandim do quartel do Carmo, ecoava no ar o som estridente do clarim da alvorada, como que um apelo empolgante à cruzada do dia que começava; aos magotes, as pombas esvoaçavam, em voo rasante, sobre os velhos telhados e pousavam atordoadas nos seus beirais; os incessantes sibilos dos barcos das travessias do Tejo a anunciarem a sua aproximação aos desembarcadouros que, minutos depois, despejam rores de gente da outra banda e se acotovelam num corrupio em direção às praças; às ruas; às vielas, para se apinharem noutros transportes que as levasse aos seus trabalhos.       
Da pequena telefonia, Schaub Lorenz, na mesinha de cabeceira, que o meu pai comprou no “prego” pelo preço de tuta-e-meia, ouvia, em ondas-curtas, as vozes da rádio: «O Comboio das 6 e Meia; o seu programa da manhã», da «Rádio Graça»: umas vezes, a voz serena de Carlos Ramos: − «…Sempre que Lisboa canta/à gente encanta/Sua beleza/Pois quando Lisboa canta/Canta o fado/com certeza…»; outras vezes, entre muitas outras, a voz melodiosa de Tristão da Silva: − «Cem anos que eu viva não posso esquecer-me/Daquele navio que eu vi naufragar/Na boca da Barra tentando perder-me/E daquela janela virada pr’ó mar...», e, era tempo de me ataviar e sair a correr escadaria abaixo até ao Martim Moniz, para apanhar o carro elétrico com direito ao bilhete operário.]

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