1967
10 de Fevereiro
Sexta-feira, 21h00
|
|
Não saí para
começar a fazer o retrato a pastel, pela fotografia, da mulher de um camarada,
colega de trabalho. Entretanto parei, para espairecer e ir ao barbeiro cortar o
cabelo. Ele não pôde cortar-mo, por estar na hora de partida para
ir ao cinema.
Tenho aqui de anotar, com grande alegria, o reencontro de
um grande amigo de Lisboa, dos tempos da nossa juventude, que já não via vai
para uns 0it0, ou mais, anos. Mal o reconheci por estar muito magro. É furriel
e, encontrei-o por acaso, quando passava pela secção aonde trabalho.
Neste mesmo dia, à noite, fomos jantar, ao restaurante,
frango assado e falámos muito sobre as nossas vidas passadas de quando éramos
garotos e da guerra que fazíamos por causa das miúdas. Saíamos juntos e voltava-mos,
quase sempre, separados. Ele tinha vantagem, por ser alfacinha. Eu perdia-a, por ter vindo das berças, de modos abimbalhados, ainda a cheirar a estrume. Belas recordações da nossa adolescência.
Foi o primeiro amigo, lisboeta,
que conheci quando cheguei a Lisboa, − capital do
Império − com os meus treze anos, vindo da parvalheira,
como se dizia por lá.
O meu Pai morava num quarto independente alugado em casa dos pais dele,
num prédio antigo na encosta Ocidental da colina do castelo de São Jorge,
Freguesia de São Cristóvão, com uma janela de uma lida e espetacular vista
sobre a Praça da Figueira, Rossio, Restauradores; em frente, as ruínas do
Mosteiro do Carmo; à esquerda, ao fundo, o Tejo com os cacilheiros a fazerem a
travessia para a outra banda, o Terreiro do Paço e toda a Baixa Pombalina¹.
Tem nove meses de Guiné e vai partir, de avião, para a
Metrópole gozar um mês de licença.
Pedi-lhe o favor de ir ter com a minha família, o que me
prometeu com grande alegria, para lhes contar notícias minhas e a tranquilizar.
Confesso que tive
uma grande alegria em o
ver. Vamos encontrar-nos mais vezes, se Deus quiser.
Hoje recebi correspondência da minha namorada, dos meus
pais e do meu irmão do meio. Os meus pais dizem-me, no seu aerograma, que já receberam a pensão de 360 escudos que lá deixei.
Vamos ver se consigo governar-me com os parcos 148 escudos que cá recebo mais
os ganhos dos meus desenhos.
Esta semana, não escreverei à minha namorada. Espero carta
sua, com uma resposta, ao longo romansório
que lhe enviei.
Ela faz anos no próximo dia 22. Não sei bem que prenda lhe
oferecer. Vou aguardar pela sua carta e depois logo verei.
A semana passada, ouvi pela rádio um disco que ela me
dedicou. A música era: o «bailinho do nosso
amor». Gostei, por ser ela a dedicar-mo, mas, confesso, não é a minha música
de eleição.
Tenho trabalhado bastante nos meus desenhos artísticos e
tenho ganho uns ‘patacões’ como cá se
diz.
Veio hoje trabalhar para a secção um furriel.
O chefe da secção é o capitão Campos e tem muito apreço por
mim por eu ser uma pessoa aplicada ao trabalho. Queira Deus que esta estima se
conserve até ao fim.
O capitão é uma pessoa com uma postura muito caricata. É
baixote, com uns grandes óculos de aros e lentes muito grossas, os calções
muito puxados para a cintura e rabo muito empinado, tipo prateleira.
Ao caminhar, por ser curto de perna,
estica mais o passo, dá a impressão de andar aos saltinhos e então
alcunharam-no de ‘pardal sem rabo’.
Uma alcunha mesmo a propósito. Mas é boa pessoa. Parece-me mesmo boa pessoa.
Trata todos por filho. Ó filho, isto! Ó filho, aquilo! …
Tudo tem corrido bem e parece-me que até estou a notar em
mim outro otimismo. Não obstante, há dias em que ando bastante enervado e
aborrecido. Sinto nestas crises mau humor e uma certa dose de antipatia, por
não morrer de amores, pelos camaradas de raça negra. Mas eles estão na terra
deles.
![]() |
| Como éramos |
¹ [A esta janela
perdia horas a fio debruçado sobre ela nas madrugadas de insónia de lágrima ao
canto do olho quando as saudades da terra apertavam. Deslumbrado, extasiava com
as luzes dos candeeiros e dos reclames luminosos de néon a faiscar às cores sobre
os telhados da baixa lisboeta; o rilhar dos carros elétricos a dobrar a Praça
da Figueira para o Poço do Borratém e o brado dos pregoeiros com os seus pregões
matinais, logo de manhãzinha cedo: «ó
fava-riiica!»; «quem quer figos quem quer almoçaaar!»; os ardinas de calças
remendadas arregaçadas e de saco a0 tiracolo carregando os jornais da manhã, a
correrem descalços pelas ruas e becos: «ó
século ó diário, traz a bola ó desportiiivo!»; as varinas apressadas de canastra
à cabeça sobre uma rodilha, de entremeio, bordada com enfeites coloridos, briosas
dos seus trajes bairristas e chinelas floreadas, a condizer, na mão para
aligeirarem o passo não vá a concorrente adiantar-se: «ó vivinha da cooosta… venha cá, ó freguesa!». As saudades
dissipavam-se, as lágrimas mirravam. De memória ainda fresca do marasm0 da
aldeia, dizia eu muitas vezes para o meu Pai: − Ó Pai, Lisboa
parece que está sempre em festa!
Do varandim do quartel do Carmo, ecoava no ar o som
estridente do clarim da alvorada, como que um apelo empolgante à cruzada do dia
que começava; aos magotes, as pombas esvoaçavam, em voo rasante, sobre os
velhos telhados e pousavam atordoadas nos seus beirais; os incessantes sibilos
dos barcos das travessias do Tejo a anunciarem a sua aproximação aos desembarcadouros
que, minutos depois, despejam rores de gente da outra banda e se acotovelam num
corrupio em direção às praças; às ruas; às vielas, para se apinharem noutros
transportes que as levasse aos seus trabalhos.
Da pequena telefonia, Schaub
Lorenz, na mesinha de cabeceira, que o meu pai comprou no “prego” pelo
preço de tuta-e-meia, ouvia, em ondas-curtas, as vozes da rádio: «O Comboio das
6 e Meia; o seu programa da manhã», da «Rádio Graça»: umas vezes, a voz serena
de Carlos Ramos: − «…Sempre que Lisboa canta/à gente encanta/Sua
beleza/Pois quando Lisboa canta/Canta o fado/com certeza…»; outras vezes, entre muitas outras, a
voz melodiosa de Tristão da Silva: − «Cem anos que eu viva não posso esquecer-me/Daquele
navio que eu vi naufragar/Na boca da Barra tentando perder-me/E daquela janela
virada pr’ó mar...», e, era tempo de me ataviar e sair a correr escadaria
abaixo até ao Martim Moniz, para apanhar o carro elétrico com direito ao
bilhete operário.]

Sem comentários:
Enviar um comentário