1967
26 de Fevereiro.
Domingo, 20h00.
Tudo tem corrido normalmente bem, até aqui. Há dias que ando bastante aborrecido e pessimista. Começo a animar quando penso que todas as semanas têm uma Sexta-feira, porque é o dia da semana em que há mais que uma vez correspondência vinda da Metrópole.
Penso que, ando aborrecido e pessimista, por estar longe de
tudo e não ter onde ocupar o tempo. Quando ando entretido a fazer os meus
desenhos, ou a ler, o tempo não custa tanto a passar. Muitas vezes, na companhia de um ou
dois camaradas, passeio pela cidade.
Em pouco mais de 30 minutos está o
passeio feito.
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¹ [Os desertores, considerados pelo regime de traidores à Pátria, eram, em muitos casos, aliciados pela propaganda do inimigo, PAIGC, (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde), que apelava à deserção da tropa das nossas fileiras e a entregarem-se voluntariamente às suas tropas; que seriam bem recebidos e tratados e que seriam encaminhados para um país estrangeiro à sua escolha, com as despesas pagas ao abrigo do asilado político.]
Estou no café Avenida com um meu camarada e
amigo. Acabamos de preencher o totobola, a meias, e bebemos já o nosso café da
praxe ao mesmo tempo que ouvimos a canção «Sol
de Inverno» cantada por Simone de Oliveira.
À nossa mesa vieram sentar-se dois camaradas Fuzileiros,
conterrâneos do meu amigo que vieram, do aquartelamento no ‘mato’, visitar dois camaradas que estão no hospital com
queimaduras muito graves no rosto.
Contaram que, quando estes patrulhavam pelo rio Geba, numa
lancha da marinha, próximo da fronteira com o Senegal, uma granada de bazuca
passou entre eles arrancando a cabeça do sargento que estava no meio.
Prosseguindo com a narrativa deste macabro incidente, dizem
ter sido perpetrado por um camarada, amanuense, que desertou das nossas fileiras e se passou para o lado dos terroristas por este sargento,
no âmbito de um processo disciplinar, ter sido a causa de ele ser punido com
várias intervenções no ‘mato’. «Ele
terá dito ao sargento que, numa destas missões, − numa ‘cambança’, (palavrão proferido pelos “turras” na passagem de uma margem para
a outra), − se passaria para o «outro lado da barricada» e lhe arrancaria a cabeça do corpo com
uma bazucada».
Tenho ouvido várias histórias a respeito de camaradas que
desertam e se passam para o «lado de lá»,
uns voluntariamente, outros capturados e que, daí, preparam o «salto» para França ou outros países
onde tenham familiares seus, nunca combatem ao lado dos terroristas contra os
seus camaradas.¹ Dizem, até, que os “turras” os tratam bem, por
compreenderem que esta guerra não é deles, e o máximo que poderão obrigá-los a
afazer, para além das longas caminhadas a pé, até se romperem as botas, é terem
de dar instrução sobre o manejo do seu equipamento bélico.
Prosseguindo a conversa com outras histórias ouço contar
que há aquartelamentos encurralados, em termos de produtos
para alimentação das tropas, que fazem tratos com aldeamentos controlados pelas
forças inimigas de intercâmbio de trocas de medicamentos, da nossa parte, por
gado e outros víveres, da parte deles.
Já ouvi dizer, noutras ocasiões, igualmente nas conversas
de mesa de cafés, a outros camaradas que por várias vezes sofreram emboscadas
quando percorriam a picada e pouco
antes, ou pouco depois, tinha por lá passado uma correnteza de camiões, sem
qualquer escolta, de uma grande companhia comercial instalada em Bissau,
carregados de amendoim, café, arroz, tabaco ou outras produções de exportação,
como; madeira, borracha, milho cana-de-açúcar, algodão, etc., sem que lhes
acontecesse qualquer arranhão ou dano.
Recebi carta da minha namorada em resposta ao romansório
que citei no capítulo anterior. A resposta foi negativa, como previa. Não
esperava tanta incompreensão. Não lhe respondi para ver a sua reação. Negativa,
também. Pois não recebi, esta semana, carta sua. No dia das suas dezoito
primaveras enviei-lhe um telegrama com felicitações.
Depois de ter enviado o telegrama, e de ter uma conversa
ocasional com camaradas, apercebi-me que não o devia ter feito deste modo por
este portador de mensagens frias e abreviadas, célere a difundir desgraças e
tragédias, estar conotad0, perante as famílias que têm os seus entes na guerra,
de ser o mensageiro do prenúncio das piores notícias.
O calor está a aumentar. Chego a tomar três banhos por dia
e, não obstante, ando sempre a transpirar.
Ando a fazer uma série de desenhos com aspetos desta cidade
com a ideia de fazer uma exposição.
Tudo tem corrido normalmente bem, até aqui. Há dias que ando bastante aborrecido e pessimista. Começo a animar quando penso que todas as semanas têm uma Sexta-feira, porque é o dia da semana em que há mais que uma vez correspondência vinda da Metrópole.
Às vezes, fico mais desanimado ainda, como esta semana, por
não ter recebido carta da minha namorada e quando elas estão desprovidas de
conteúdos mais profundos deixam um vazio, ainda maior, no meu coração.
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Liceu Honório Barreto |
A cidade é pouco mais que a Avenida da República, que é a
avenida central e principal, onde estão situados os principais cafés e
esplanadas e são feitos os desfiles militares, e as ruas perpendiculares, de um
lado e de outro desta, que ligam a outras duas avenidas laterais a esta. O cais
ao fundo e a estátua do descobridor da Guiné, Nuno Tristão, a Sul. E, a Norte,
a Praça do Império, onde se concentram as tropas para os desfiles, com o
imponente monumento dedicado «Ao Esforço da Raça» e o não menos majestoso
palácio, estilo colonial, do Governador militar.
Muitas vezes, também, vamos a pé da cidade para o quartel
que, fica a cerca de dois quilómetros e meio, como já referi.
Monumento dedicado «Ao Esforço da Raça» e Palácio do Governador
Monumento dedicado «Ao Esforço da Raça» e Palácio do Governador
Vivo, neste momento, somente para a minha arte. Não
obstante, há trabalhos que me desagradam completamente, deixando-me
exageradamente desesperado, inutilizando-os de seguida com raiva, repetindo-os
novamente, às vezes, mais que uma, duas e três vezes, até ficar
satisfeito.
Tenho gasto bastante dinheiro, sem saber aonde. Daqui para
a frente, terei de levar uma vida mais sóbria, se quiser conservar a pensão que
deixei na Metrópole. Vai ser um bocado difícil!
¹ [Os desertores, considerados pelo regime de traidores à Pátria, eram, em muitos casos, aliciados pela propaganda do inimigo, PAIGC, (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde), que apelava à deserção da tropa das nossas fileiras e a entregarem-se voluntariamente às suas tropas; que seriam bem recebidos e tratados e que seriam encaminhados para um país estrangeiro à sua escolha, com as despesas pagas ao abrigo do asilado político.]


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