terça-feira, 24 de outubro de 2017

Uma granada de bazuca passou entre eles e arrancou a cabeça do sargento


        1967
26 de Fevereiro.
Domingo, 20h00. 

 
Estou no café Avenida com um meu camarada e amigo. Acabamos de preencher o totobola, a meias, e bebemos já o nosso café da praxe ao mesmo tempo que ouvimos a canção «Sol de Inverno» cantada por Simone de Oliveira.
À nossa mesa vieram sentar-se dois camaradas Fuzileiros, conterrâneos do meu amigo que vieram, do aquartelamento no ‘mato’, visitar dois camaradas que estão no hospital com queimaduras muito graves no rosto.
Contaram que, quando estes patrulhavam pelo rio Geba, numa lancha da marinha, próximo da fronteira com o Senegal, uma granada de bazuca passou entre eles arrancando a cabeça do sargento que estava no meio.
Prosseguindo com a narrativa deste macabro incidente, dizem ter sido perpetrado por um camarada, amanuense, que desertou das nossas fileiras e se passou para o lado dos terroristas por este sargento, no âmbito de um processo disciplinar, ter sido a causa de ele ser punido com várias intervenções no ‘mato’. «Ele terá dito ao sargento que, numa destas missões, − numa ‘cambança’, (palavrão proferido pelos “turras” na passagem de uma margem para a outra), − se passaria para o «outro lado da barricada» e lhe arrancaria a cabeça do corpo com uma bazucada».
Tenho ouvido várias histórias a respeito de camaradas que desertam e se passam para o «lado de lá», uns voluntariamente, outros capturados e que, daí, preparam o «salto» para França ou outros países onde tenham familiares seus, nunca combatem ao lado dos terroristas contra os seus camaradas.¹ Dizem, até, que os “turras” os tratam bem, por compreenderem que esta guerra não é deles, e o máximo que poderão obrigá-los a afazer, para além das longas caminhadas a pé, até se romperem as botas, é terem de dar instrução sobre o manejo do seu equipamento bélico.                                           
Prosseguindo a conversa com outras histórias ouço contar que há aquartelamentos encurralados, em termos de produtos para alimentação das tropas, que fazem tratos com aldeamentos controlados pelas forças inimigas de intercâmbio de trocas de medicamentos, da nossa parte, por gado e outros víveres, da parte deles.
Já ouvi dizer, noutras ocasiões, igualmente nas conversas de mesa de cafés, a outros camaradas que por várias vezes sofreram emboscadas quando percorriam a picada e pouco antes, ou pouco depois, tinha por lá passado uma correnteza de camiões, sem qualquer escolta, de uma grande companhia comercial instalada em Bissau, carregados de amendoim, café, arroz, tabaco ou outras produções de exportação, como; madeira, borracha, milho cana-de-açúcar, algodão, etc., sem que lhes acontecesse qualquer arranhão ou dano.

Recebi carta da minha namorada em resposta ao romansório que citei no capítulo anterior. A resposta foi negativa, como previa. Não esperava tanta incompreensão. Não lhe respondi para ver a sua reação. Negativa, também. Pois não recebi, esta semana, carta sua. No dia das suas dezoito primaveras enviei-lhe um telegrama com felicitações.
Depois de ter enviado o telegrama, e de ter uma conversa ocasional com camaradas, apercebi-me que não o devia ter feito deste modo por este portador de mensagens frias e abreviadas, célere a difundir desgraças e tragédias, estar conotad0, perante as famílias que têm os seus entes na guerra, de ser o mensageiro do prenúncio das piores notícias.

O calor está a aumentar. Chego a tomar três banhos por dia e, não obstante, ando sempre a transpirar.

Ando a fazer uma série de desenhos com aspetos desta cidade com a ideia de fazer uma exposição.
 
        Tudo tem corrido normalmente bem, até aqui. Há dias que ando bastante aborrecido e pessimista. Começo a animar quando penso que todas as semanas têm uma Sexta-feira, porque é o dia da semana em que há mais que uma vez correspondência vinda da Metrópole.  
Às vezes, fico mais desanimado ainda, como esta semana, por não ter recebido carta da minha namorada e quando elas estão desprovidas de conteúdos mais profundos deixam um vazio, ainda maior, no meu coração.



Liceu Honório Barreto
 
        Penso que, ando aborrecido e pessimista, por estar longe de tudo e não ter onde ocupar o tempo. Quando ando entretido a fazer os meus desenhos, ou a ler, o tempo não custa tanto a passar. Muitas vezes, na companhia de um ou dois camaradas, passeio pela cidade.
A cidade é pouco mais que a Avenida da República, que é a avenida central e principal, onde estão situados os principais cafés e esplanadas e são feitos os desfiles militares, e as ruas perpendiculares, de um lado e de outro desta, que ligam a outras duas avenidas laterais a esta. O cais ao fundo e a estátua do descobridor da Guiné, Nuno Tristão, a Sul. E, a Norte, a Praça do Império, onde se concentram as tropas para os desfiles, com o imponente monumento dedicado «Ao Esforço da Raça» e o não menos majestoso palácio, estilo colonial, do Governador militar. 
Em pouco mais de 30 minutos está o passeio feito.
Muitas vezes, também, vamos a pé da cidade para o quartel que, fica a cerca de dois quilómetros e meio, como já referi.


                           Monumento dedicado «Ao Esforço da Raça» e Palácio do Governador

Vivo, neste momento, somente para a minha arte. Não obstante, há trabalhos que me desagradam completamente, deixando-me exageradamente desesperado, inutilizando-os de seguida com raiva, repetindo-os novamente, às vezes, mais que uma, duas e três vezes, até ficar satisfeito.                    
Tenho gasto bastante dinheiro, sem saber aonde. Daqui para a frente, terei de levar uma vida mais sóbria, se quiser conservar a pensão que deixei na Metrópole. Vai ser um bocado difícil!
 
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¹ [Os desertores, considerados pelo regime de traidores à Pátria, eram, em muitos casos, aliciados pela propaganda do inimigo, PAIGC, (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde), que apelava à deserção da tropa das nossas fileiras e a entregarem-se voluntariamente às suas tropas; que seriam bem recebidos e tratados e que seriam encaminhados para um país estrangeiro à sua escolha, com as despesas pagas ao abrigo do asilado político.]
 
 

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