segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Já não há bichas nem “bichonas” a rondar


                                                                   Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
                                                                                             Neptuno lá nas águas acendiam,
 
                                                                                 (Lusíadas, C. V. XI)
 

        Guiné/Bissau

          1967
13 de Janeir0
Sexta-feira, 21h00


D

urante este período de tempo recebi carta dos meus pais, do meu irmão, do primo Domingos que está em França, da Ofélia uma amiga de Lisboa, e da minha namorada com duas fotografias; uma fotografia no casamento de uma tia e a outra de seu meio-corpo.
As suas cartas continuam a ser frias e vazias de conteúdo. As suas palavras escritas são palavras que pouco ou nada me querem dizer. Será por princípio? Será por timidez? Será por inexperiência? Ou será por ignorância?! A partir de agora, vou passar a escrever-lhe como a uma amiga, por me ter dito que não sabe responder às minhas palavras de leitura complicada para ela.
Hoje, Sexta-feira treze foi um dia igual a todos os outros. Isto já começa a cair na monotonia. Esteve um dia de muito calor e transpirei de manhã à noite.
O que mais me incomoda ainda, é realmente esta cacimba que cai sobre o nosso corpo e penetra nos ossos não só durante a noite mas também de dia. Esta cacimbada infiltra-se pela nossa roupa adentro e ao mistura-se com a nossa transpiração forma uma espécie de viscosidade pegajosa que cola a nossa roupa, já toda empapada, ao nosso corpo de tal modo que quanto mais transpiramos pior ainda. De pouco nos serve correr para o duche, que quase sempre há fileiras e, também, não há roupa para mudar a toda a hora.
O meu melhor duche é depois da meia-noite. Já está um pouco mais fresco e já não há bichas nem “bichonas” a rondar. Lavo a camisa, as calças ou calções, meias e a roupa interior, que são apenas os trusses. Estendo estas cinco peças de roupa numa corda esticada por cima da minha cama, por dentro da rede mosquiteira, e, pela manhã, está seca, pronta a ser usada.
A minha cama fica por cima de outra e, quando me deito, tenho de subir com todo o cuidado para não acordar ou incomodar o camarada que dorme por debaixo.  
Todas as camas têm uma rede mosquiteira e antes de deitar à que fazer uma inspecção para que não haja nenhuma melga ou outro mosquito, inimigos, a metralhar-nos o corpo.
No silêncio da noite, principalmente nesta época do cacimbo que é quente e húmida, há camaradas que, ao ouvir a zoada dum inseto dentro do seu abrigo, começam a gritar: - «Aqui d’el-rei, ó da guarda! Estou a ser bombardeado pela força aérea dos “turras”!» O que, para nos livrarmos destas incursões noturnas, temos de pulverizar o espaço com ‘Pestex Aerosol’, «que mata que se farta».
A caserna, não sendo nenhum hotel de cinco estrelas, faz uma grande diferença da que descrevi em capítulos atrás: as paredes parecem de boa construção e o telhado é em telha de barro, com teto; tem um alpendre coberto, virado a Sul, com mesas e bancos, construídos de forma atamancada, onde se joga à batota e se põe a escrita em dia; tem um plantão a tempo inteiro que zela pela higiene, funcionamento e bens dos camaradas. Todos os Sábados de manhã há revista, pelo oficial dia, e todos perfilámos na frente das nossas camas e ninguém arreda pé enquanto a ‘revista não passar’. Todos os dias, ninguém sai da caserna sem deixar a cama feita e as suas coisas arrumadas; ninguém entra na caserna sem ser à hora do almoço e depois do jantar; se alguém fica deitado para além das horas habituais da noite ou da sesta, o plantão vai saber porquê. Ou esteve de serviço, durante a noite, ou está doente. Aqui não há madraços.
Do teto, que é alto, dependuram teias de aranha e duas grandes ventoinhas que pachorrentamente a gemer e a chiar rodam durante as 24 horas do dia. Estas ventoinhas não só refrescam o ar como sacodem a bicharada ‘bombardeira’ que, mesmo assim, em certas noites de muito calor, não são suficientes pelo que, muitos camaradas e eu também, temos uma pequena ventoinha aos pés da cama, por dentro da rede mosquiteira, não só para ajudar a refrescar mas, também, para não deixar entrar as melgas e outros bichos que nos deixam o corpo numa desgraça, para além de que, e é deveras grave, através das suas ferradelas nos ser transmitida a doença do Paludismo, que não é mais nem menos que a febre da malária.
No quinto parágrafo atrás, deste capítulo, empreguei a palavra “bichonas” para não usar de outros adjetivos mais depreciativos por que são conhecidos os fulanos desta laia. Eles bem disfarçam o melhor que podem, para passarem despercebidos. Porém, não deixam de dar nas vistas, ao tomarem certos trejeitos e poses amaneiradas que os denunciam, como por exemplo: perfilarem-se nas filas do banho para mirarem e selecionarem as suas freguesias. Nas filas para o recebimento do pré, são os fregueses que se perfilam discretamente à distância, sem os perder de vista, para lhes sacarem “o bagulho”.
Um dia destes, neste entremeio, precisamente nas vésperas de Ano Novo, fui mais um camarada ao “Pilão”, (espécie de Bairro Alto cá do sítio, no sentido mais degenerativo).
Este sítio fica fora dos limites da cidade e vim a saber, depois, por outros camaradas que, é altamente perigoso deambular por aqui, sem que se ande armado e na companhia de mais camaradas.
        O nome verdadeiro deste sítio é Cupelon, mas a malta conhece-o mais por “Pilão”, provavelmente, por constantemente se ouvir, até na cidade, nas horas de maior silêncio, o ‘pum-pum…’ do pilão a apiloar a mandioca. Há camaradas que afirmam que é mais por causa das “pilas dos tropas” que por lá vadiam.
Fomos à aventura para satisfazer uma necessidade física e se não aconteceu nada foi porque não tinha que acontecer.
Pelo que ouvi de camaradas, este sítio é já considerado mato e, por estar próximo da cidade, é frequentado por militares de parcos rendimentos, para satisfazerem as necessidades carnais. Sabendo disto, os alegados terroristas escondem-se nas palhotas das tabancas ou no mato para praticarem verdadeiros atos de barbárie.
Ouvi narrar alguns destes atos, a fazer fé, bem macabros. Principalmente uma história de três Fuzileiros que foram encontrados por camaradas, dentro de uns bidões, com a cabeça cortada e retalhados à catanada.
Ao ouvi-la, o meu corpo arrepiou-se e os cabelos eriçaram-se, vindo-me à memória o que desagradavelmente constatei e que vou descrever:
 Embrenhamo-nos pelo antro e só não fomos aos tropeções e às apalpadelas porque a noite estava bastante clara e fomos encontrando algumas fogueiras pelo caminho, junto às palhotas, que nos foram guiando. De contrário ficaríamos por ali. Mas como, no início, havia alguma iluminação e nos cruzamos com outros camaradas, fomo-nos embrenhando.   
Na primeira tabanca, (aglomerado de palhotas), ficamos por ali, ao avistarmos um pequeno grupo de mulheres. Depois de vermos aparentemente o ambiente, e de combinarmos o preço, escolhemos cada um a nossa mulher. Não dava para escolher muito, por não estarmos habituados à cor da pele e também como estávamos na penumbra, era tudo escuro e, para o ato, tanto faria esta como aquela.
Ao entrar na palhota e ao ver o ambiente à luz mortiça e tremeluzente de um candeeiro a petróleo o meu ímpeto começou a esmorecer.
Nunca tinha visto por dentro uma palhota. No chão de terra batida, coabitavam porcos, cabras e galinhas. Um rapaz, dormia no chão sobre uns trapos, tendo como travesseiro a barriga de uma porca, ou porco; sei lá! O cheiro fétido, nauseabundo, começava a entranhar-se nas minhas narinas sentido a mesma sensação putrefacta de, à dois meses atrás, quando pela primeira vez pisei o chão desta terra, e, então, quando a “nharra” desenrola o pano que lhe cobria o corpo, é que fiquei completamente prostrado. 
Não sei que idade teria ela, e até se seria a mãe daquele rapaz, mas pelo aspeto da cara não parecia velha. Os seus seios, desmesuradamente grandes, espalmados sobre a barriga chegavam ao umbigo e o corpo, desde o peito até à púbis, completamente cheio de protuberâncias horripilantes de contornos sinuosos formando desenhos que não deu para perceber.
Não fui capaz! Saí a correr para fora e vomitei todo o jantar. Ela sai a correr atrás de mim a gritar: - Branco tem ‘di pagá’, branco tem ‘di pagá’! …
 Depois de recomposto e já que tinha ‘di pagá’, ainda entrei e tentei esforçar-me mas, perante todo este cenário, fiquei momentaneamente impotente.
Paguei-lhe os ‘30 pesos’, (30 escudos), que tínhamos acordado e ao sair despertou-me a curiosidade de espreitar uma divisória, em tapume, com um pano, à frente, a tapar.
Peguei no candeeiro com uma mão, com a outra arredei o pano para o lado e, depois de tudo isto, para completar a cena, era só o que me faltava para ficar completamente aterrado. Estava uma bisarma de negro, «de corpo inteiro», todo nu, de costas voltadas, a dormir sobre uma enxerga, ou a fazer que dormia, com uma grande catana atravessada por debaixo do pescoço com o cabo na direção do nariz e a mão direita a apertar o mesmo.
Recuei à cautela, segurando o candeeiro que por sinal estava cheio de petróleo, − fosse eu obrigado a arremessá-lo contra o “nharro”¹ − e, com a “nharra” a tolher-me os passos, devolvi-lhe o candeeiro, fugindo rapidamente para fora, fui procurar o meu camarada na palhota ao lado.
 Esta, vista de relance, sob a luminosidade da chama fumarenta de outro candeeiro a petróleo, a meio gás, não era diferente daquela. Também tinha animais e o mau cheiro, igualmente, tresandava. O meu camarada estava num cubículo tapado com um pano, idêntico ao que descrevi, já a subir as calças. Contei-lhe rapidamente o que vi, rematando que tínhamos de cavar dali a sete pés.
Depois de estarmos em terreno seguro, contei-lhe exatamente o que me havia sucedido. Com ar apreensivo, porque também ele tinha ouvido umas histórias, diz-me que a sua sorte foi já estar com as calças na mão, senão, por pouco, nem o deixava acabar o frete.



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¹ [Termo pejorativo usado pelos militares em relação aos negros na Guiné, como: “barrote queimado”, “escarumba”, “preto”, entre outros.

Dependendo da forma de como é proferido, pode entender-se como: boi, no sentido de bruto, estúpido; ignorante, pessoa desprovida de conhecimentos.
Também os militares, entre si, chamam de “nharro” ao “tuga” branco, quando indiretamente lhe querem chamar de ignorante, estúpido…
A primeira vez que ouvi este termo, foi na apresentação no DGA aquando da minha (nossa) chegada à Guiné.]

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