Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
Neptuno
lá nas águas acendiam,
(Lusíadas, C. V. XI)
Guiné/Bissau
1967
13 de Janeir0
Sexta-feira, 21h00
D
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urante este
período de tempo recebi carta dos meus pais, do meu irmão, do primo Domingos
que está em França, da Ofélia uma amiga de Lisboa, e da minha namorada com duas
fotografias; uma fotografia no casamento de uma tia e a outra de seu
meio-corpo.
As suas cartas continuam a ser frias e
vazias de conteúdo. As suas palavras escritas são palavras que pouco ou nada me
querem dizer. Será por princípio? Será por timidez? Será por inexperiência? Ou
será por ignorância?! A partir de agora, vou passar a escrever-lhe como a uma
amiga, por me ter dito que não sabe responder às minhas palavras de leitura
complicada para ela.
Hoje, Sexta-feira treze foi um dia igual a todos os outros.
Isto já começa a cair na monotonia. Esteve um dia de muito calor e transpirei
de manhã à noite.
O que mais me incomoda ainda, é realmente
esta cacimba que cai sobre o nosso
corpo e penetra nos ossos não só
durante a noite mas também de dia. Esta cacimbada infiltra-se pela nossa roupa
adentro e ao mistura-se com a nossa transpiração forma uma espécie de
viscosidade pegajosa que cola a nossa roupa, já toda empapada, ao nosso corpo
de tal modo que quanto mais transpiramos pior ainda. De pouco nos serve correr
para o duche, que quase sempre há fileiras e, também, não há roupa para mudar a
toda a hora.
O meu melhor duche é depois da meia-noite. Já está um pouco mais
fresco e já não há bichas nem “bichonas” a
rondar. Lavo a camisa, as calças ou
calções, meias e a roupa interior, que são apenas os trusses. Estendo estas cinco peças de roupa numa corda esticada
por cima da minha cama, por dentro da rede mosquiteira, e, pela manhã, está
seca, pronta a ser usada.
A minha cama fica por cima de outra e,
quando me deito, tenho de subir com todo o cuidado para não acordar ou
incomodar o camarada que dorme por debaixo.
Todas as camas têm uma rede mosquiteira e
antes de deitar à que fazer uma inspecção para que não haja nenhuma melga ou
outro mosquito, inimigos, a metralhar-nos o corpo.
No silêncio da noite, principalmente nesta
época do cacimbo que é quente e
húmida, há camaradas que, ao ouvir a zoada dum inseto dentro do seu abrigo, começam a gritar: - «Aqui d’el-rei, ó da guarda! Estou a ser
bombardeado pela força aérea dos “turras”!»
O que, para nos livrarmos destas incursões noturnas, temos de pulverizar o
espaço com ‘Pestex Aerosol’, «que mata que se farta».
A caserna, não sendo nenhum hotel de cinco
estrelas, faz uma grande diferença da que descrevi em capítulos atrás: as
paredes parecem de boa construção e o telhado é em telha de barro, com teto;
tem um alpendre coberto, virado a Sul, com mesas e bancos, construídos de forma
atamancada, onde se joga à batota e se põe a escrita em dia; tem um plantão a
tempo inteiro que zela pela higiene, funcionamento e bens dos camaradas. Todos
os Sábados de manhã há revista, pelo oficial dia, e todos perfilámos na frente
das nossas camas e ninguém arreda pé enquanto a ‘revista não passar’. Todos os dias, ninguém sai da caserna sem
deixar a cama feita e as suas coisas arrumadas; ninguém entra na caserna sem
ser à hora do almoço e depois do jantar; se alguém fica deitado para além das
horas habituais da noite ou da sesta, o plantão vai saber porquê. Ou esteve de
serviço, durante a noite, ou está doente. Aqui não há madraços.
Do teto, que é alto, dependuram teias de
aranha e duas grandes ventoinhas que pachorrentamente a gemer e a chiar rodam
durante as 24 horas do dia. Estas ventoinhas não só refrescam o ar como sacodem
a bicharada ‘bombardeira’ que, mesmo
assim, em certas
noites de muito calor, não são suficientes pelo que, muitos
camaradas e eu também, temos uma pequena ventoinha aos pés da cama, por dentro
da rede mosquiteira, não só para ajudar a refrescar mas, também, para não
deixar entrar as melgas e outros bichos que nos deixam o corpo numa desgraça,
para além de que, e é deveras grave, através das suas ferradelas nos ser
transmitida a doença do Paludismo,
que não é mais nem menos que a febre da malária.
No quinto parágrafo atrás, deste capítulo,
empreguei a palavra “bichonas” para
não usar de outros adjetivos mais depreciativos por que são conhecidos os
fulanos desta laia. Eles bem disfarçam o melhor que podem, para passarem
despercebidos. Porém, não deixam de dar nas vistas, ao tomarem certos trejeitos
e poses amaneiradas que os denunciam, como por exemplo: perfilarem-se nas filas
do banho para mirarem e selecionarem as suas freguesias. Nas filas para o
recebimento do pré, são os fregueses que se perfilam discretamente à distância,
sem os perder de vista, para lhes sacarem “o
bagulho”.
Um dia destes, neste entremeio,
precisamente nas vésperas de Ano Novo, fui mais um camarada ao “Pilão”, (espécie de Bairro Alto cá do
sítio, no sentido mais degenerativo).
Este sítio fica fora dos limites da cidade
e vim a saber, depois, por outros camaradas que, é altamente perigoso deambular
por aqui, sem que se ande armado e na companhia de mais camaradas.
O nome verdadeiro deste sítio é Cupelon, mas a malta conhece-o mais por
“Pilão”, provavelmente, por
constantemente se ouvir, até na cidade, nas horas de maior silêncio, o ‘pum-pum…’ do pilão a apiloar a
mandioca. Há camaradas que afirmam que é mais por causa das “pilas dos tropas” que por lá vadiam.
Fomos à aventura para satisfazer uma
necessidade física e se não aconteceu nada foi porque não tinha que acontecer.
Pelo que ouvi de camaradas, este sítio é
já considerado mato e, por estar
próximo da cidade, é frequentado por militares de parcos rendimentos, para
satisfazerem as necessidades carnais. Sabendo disto, os alegados terroristas
escondem-se nas palhotas das tabancas
ou no mato para praticarem
verdadeiros atos de barbárie.
Ouvi narrar alguns destes atos, a fazer
fé, bem macabros. Principalmente uma história de três Fuzileiros que foram
encontrados por camaradas, dentro de uns bidões, com a cabeça cortada e
retalhados à catanada.
Ao ouvi-la, o meu corpo arrepiou-se e os cabelos
eriçaram-se, vindo-me à memória o que desagradavelmente constatei e que vou
descrever:
Embrenhamo-nos pelo antro e só não fomos aos
tropeções e às apalpadelas porque a noite estava bastante clara e fomos
encontrando algumas fogueiras pelo caminho, junto às palhotas, que nos foram
guiando. De contrário ficaríamos por ali. Mas como, no início, havia alguma
iluminação e nos cruzamos com outros camaradas, fomo-nos embrenhando.
Na primeira tabanca, (aglomerado de palhotas), ficamos por ali, ao avistarmos um
pequeno grupo de mulheres. Depois de vermos aparentemente o ambiente, e de
combinarmos o preço, escolhemos cada um a nossa mulher. Não dava para escolher
muito, por não estarmos habituados à cor da pele e também como estávamos na
penumbra, era tudo escuro e, para o ato, tanto faria esta como aquela.
Ao entrar na palhota e ao ver o ambiente à
luz mortiça e tremeluzente de um candeeiro a petróleo o meu ímpeto começou a
esmorecer.
Nunca tinha visto por dentro uma palhota.
No chão de terra batida, coabitavam porcos, cabras e galinhas. Um rapaz, dormia
no chão sobre uns trapos, tendo como travesseiro a barriga de uma porca, ou
porco; sei lá! O cheiro fétido, nauseabundo, começava a entranhar-se nas minhas
narinas sentido a mesma sensação putrefacta de, à dois meses atrás, quando pela
primeira vez pisei o chão desta terra, e, então, quando a “nharra” desenrola o pano que lhe cobria o corpo, é que fiquei
completamente prostrado.
Não sei que idade teria ela, e até se
seria a mãe daquele rapaz, mas pelo aspeto da cara não parecia velha. Os seus
seios, desmesuradamente grandes, espalmados sobre a barriga chegavam ao umbigo
e o corpo, desde o peito até à púbis, completamente cheio de protuberâncias
horripilantes de contornos sinuosos formando desenhos que não deu para
perceber.
Não fui capaz! Saí a correr para fora e
vomitei todo o jantar. Ela sai a correr atrás de mim a gritar: - Branco tem ‘di
pagá’, branco tem ‘di pagá’! …
Depois de recomposto e já que tinha ‘di pagá’, ainda entrei e tentei
esforçar-me mas, perante todo este cenário, fiquei momentaneamente impotente.
Paguei-lhe os ‘30 pesos’, (30 escudos), que tínhamos acordado e ao sair
despertou-me a curiosidade de espreitar uma divisória, em tapume, com um pano,
à frente, a tapar.
Peguei no candeeiro com uma mão, com a
outra arredei o pano para o lado e, depois de tudo isto, para completar a cena,
era só o que me faltava para ficar completamente aterrado. Estava uma bisarma
de negro, «de corpo inteiro», todo
nu, de costas voltadas, a dormir sobre uma enxerga, ou a fazer que dormia, com
uma grande catana atravessada por debaixo do pescoço com o cabo na
direção do nariz e a mão direita a apertar o mesmo.
Recuei à cautela, segurando o candeeiro
que por sinal estava cheio de petróleo, − fosse eu obrigado
a arremessá-lo contra o “nharro”¹ − e, com a “nharra” a
tolher-me os passos, devolvi-lhe o candeeiro, fugindo rapidamente para fora, fui
procurar o meu camarada na palhota ao
lado.
Esta, vista de
relance, sob a luminosidade da chama fumarenta de outro candeeiro a petróleo, a
meio gás, não era diferente daquela. Também tinha animais e o mau cheiro,
igualmente, tresandava. O meu camarada estava num cubículo tapado com um pano,
idêntico ao que descrevi, já a subir as calças. Contei-lhe rapidamente o que
vi, rematando que tínhamos de cavar dali a sete pés.
Depois de estarmos em terreno seguro, contei-lhe exatamente o que me havia
sucedido. Com ar apreensivo, porque também ele tinha ouvido umas histórias,
diz-me que a sua sorte foi já estar com as calças na mão, senão, por pouco, nem
o deixava acabar o frete.
¹ [Termo pejorativo usado pelos militares em relação aos negros na Guiné, como: “barrote queimado”, “escarumba”, “preto”, entre outros.
Dependendo
da forma de como é proferido, pode entender-se como: boi, no sentido de bruto,
estúpido; ignorante, pessoa desprovida de conhecimentos.
Também os militares,
entre si, chamam de “nharro” ao “tuga” branco, quando indiretamente lhe
querem chamar de ignorante, estúpido…
A primeira
vez que ouvi este termo, foi na apresentação no DGA aquando da minha (nossa)
chegada à Guiné.]
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