segunda-feira, 2 de outubro de 2017

São Vicente e Cidade da Praia

   
        1966
 02 de Novembro
 Quarta-feira, 21h30   
 
 
Arquipélago de Cabo-Verde. Algumas ilhas deste arquipélago, devido à sua situação geográfica, são também porto de atracagem dos navios da rota das Colónias ‘despejando’ também, enquanto carregam e descarregam mercadoria, centenas de militares, agrupados em turmas de moinantes, que, ao espalharem-se pelos recônditos da cidade e arredores, à procura de alguma diversão, dão a esta um sopro de vida e prosperidade ao desbaratarem o seu parco pré.
 Aqui, andei na gandaia na companhia de mais três gandulos e divertimo-nos à fartazana. O nosso objetivo foi tão-somente a boémia, até o pouco dinheiro que tínhamos se acabar. Tanto em Mindelo, na ilha de São Vicente, como na Cidade da Praia, na ilha de Santiago, todos os contactos foram com as gentes locais. Não perdemos muito tempo na cidade. Seguindo o roteiro das deambulações da magalada, afastámo-nos sempre para os arredores que não são muito distantes do centro destas pequenas cidades. A contrastar com algum conforto, vê-se muito atraso e miséria. Aqui há muito pouca coisa e estas gentes vivem praticamente à base daqueles que vão chegando que, muitos como nós, pouco trazem.
A terra é muito inóspita. Não há vegetação. Quase nunca chove. O ar quase se torna irrespirável, por causa das poeiras vulcânicas arrastadas pelo vento. Mas, tanto uma cidade como outra, apesar do seu ambiente agreste e desolador, não deixam de ter o seu encanto, tendo à sua volta as águas azuis do Oceano Atlântico.
Claro que aqui também procuramos os prazeres da carne com as primeiras galicadas africanas e, depois de estarmos juntos, cada um narrou as suas fantasias vividas com mais ou menos imaginação. 
Na Cidade da Praia travamos conhecimento com um camarada nativo que nos acompanhou. Levou-nos a sua casa e fomos convidados de honra de um batuque. Tão grandes foram os nossos entusiasmos que, teríamos perdido o barco, não fosse ter acontecido um incidente.
Juntaram-se outros camaradas que, embora viajando connosco, pertenciam a outro grupo errante e, nestas situações, havendo sempre alguns exageros com mulheres e álcool à mistura − mais propriamente aguardente da cana-de-açúcar −  provavelmente apanharíamos uma surra de todo o tamanho se não fosse o termos de correr para o barco por estarmos em cima da hora do embarque. 
 Em São Vicente, permanecemos uma noite e um dia até às sete da tarde. Alguns camaradas, até passaram a noite fora de casa, sem a mamã saber. Na Cidade da Praia, permanecemos nove horas. São 22 horas – em Lisboa, são 23. Estou a terminar esta narrativa no bar da segunda classe que é, ao mesmo tempo, cozinha e sala da nossa primeira refeição da manhã.  

Amanhã, ao fim de 10 dias de viagem, por volta das 10 horas, chegaremos ao nosso destino. Ao atracarmos, chegará a hora da verdade!

                                                                                                                              Entrámos, navegando, pelas filhas 
                                                                     Do velho Hespério, Hespéridas chamadas;

                                                                                           (Lusíadas, C. V. VIII)

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