1966
02 de Novembro
Quarta-feira, 21h30
Arquipélago de
Cabo-Verde. Algumas ilhas deste arquipélago, devido à sua situação geográfica,
são também porto de atracagem dos navios da rota das Colónias ‘despejando’ também, enquanto carregam e
descarregam mercadoria, centenas de militares, agrupados em turmas de
moinantes, que, ao espalharem-se pelos recônditos da cidade e arredores, à
procura de alguma diversão, dão a esta um sopro de vida e prosperidade ao
desbaratarem o seu parco pré.
Aqui, andei na
gandaia na companhia de mais três gandulos e divertimo-nos à fartazana. O nosso objetivo foi tão-somente a
boémia, até o pouco dinheiro que tínhamos se acabar. Tanto em Mindelo, na ilha
de São Vicente, como na Cidade da Praia, na ilha de Santiago, todos os
contactos foram com as gentes locais. Não perdemos muito tempo na cidade.
Seguindo o roteiro das deambulações da magalada,
afastámo-nos sempre para os arredores que não são muito distantes do centro
destas pequenas cidades. A contrastar com algum conforto, vê-se muito atraso e
miséria. Aqui há muito pouca coisa e estas gentes vivem praticamente à base
daqueles que vão chegando que, muitos como nós, pouco trazem.
A terra é muito inóspita. Não há vegetação. Quase nunca
chove. O ar quase se torna irrespirável, por causa das poeiras vulcânicas
arrastadas pelo vento. Mas, tanto uma cidade como outra, apesar do seu ambiente
agreste e desolador, não deixam de ter o seu encanto, tendo à sua volta as
águas azuis do Oceano Atlântico.
Claro que aqui também procuramos os prazeres da carne com
as primeiras galicadas africanas e,
depois de estarmos juntos, cada um narrou as suas fantasias vividas com mais ou
menos imaginação.
Na Cidade da Praia travamos conhecimento com um camarada
nativo que nos acompanhou. Levou-nos a sua casa e fomos convidados de honra de
um batuque. Tão grandes foram os
nossos entusiasmos que, teríamos perdido o barco, não fosse ter acontecido um
incidente.
Juntaram-se outros camaradas que, embora viajando connosco,
pertenciam a outro grupo errante e, nestas situações, havendo sempre alguns
exageros com mulheres e álcool à mistura − mais
propriamente aguardente da cana-de-açúcar − provavelmente apanharíamos uma surra de todo o
tamanho se não fosse o termos de correr para o barco por estarmos em cima da
hora do embarque.
Amanhã, ao fim de 10 dias de viagem, por volta das 10 horas, chegaremos ao nosso destino. Ao atracarmos, chegará a
hora da verdade!
Entrámos, navegando, pelas filhas
Do velho Hespério,
Hespéridas chamadas;
(Lusíadas, C. V. VIII)
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