Passamos a
grande ilha da Madeira,
Que
de muito arvoredo assim se chama,
(Lusíadas, C. V. V.)
(Lusíadas, C. V. V.)
29 de Outubro
Sábado, 23h00
Em Lisboa é meia-noite
Hoje houve uma
quebra na monotonia deste ambiente com um pequeno incidente. Um camarada, movido
por ciúmes de uma mestiça, fez uma escaramuça com um passageiro civil. Foi
ridículo e despropositado. A cena chegou até ao comandante do navio e, segundo
ouvi dizer a um passageiro, vamos perder a liberdade de frequentar a primeira
classe do navio.
Merece aqui ser dito, por não o ter feito antes, que este
navio com o nome de ALFREDO DA SILVA, nome do «patrão» da CUF, (Companhia União Fabril), é um barco da
nossa Marinha Mercante de porte médio e transporta, para além de mercadoria,
passageiros civis e militares, rumo à Província Ultramarina da Guiné
Portuguesa.
Os militares, que aqui vão, são cerca de oitenta que, quase
todos, por motivos disciplinares, («porradas»)¹, nos quais eu me
incluo, foram mobilizados para esta Província em rendição individual.
Quanto aos civis, não sei exatamente quantos serão mas
devem ser pouco menos. São sobretudo casais, a maior parte deles com o dobro da
nossa idade, brancos e alguns de cor, com filhos: uns, radicados na
Guiné; outros, oriundos, que regressam: uns, de um período de férias; outros,
de negócios na Metrópole.
Distantes, em pequenos grupos isolados, como que a
acautelar falsas aparências, mas que o porte facilmente as denuncia, algumas
delambidas, já entradas, que a malta diz serem galdérias dos antros de Lisboa.
Num escasso espaço,
sem ventilação, sem luz, entre ferros que suportam o estrado do tombadilho da
proa, foi improvisada uma camarata com tarimbas muito acanhadas, encavalitadas
umas sobre as outras, em madeira tosca, uma mesa de tábuas corridas, igualmente
tosca, onde tomamos as refeições e no tombadilho, a um canto, a estibordo,
junto à amurada do navio, também em madeira tosca, foram instaladas as latrinas:
comuas de tábuas corridas com uns tantos buracos redondos, onde defecamos,
vomitamos e outras imundices e uns tantos chuveiros.
Foi-nos dito, em formatura, pelo comandante do navio, que
poderíamos andar por todo o navio, inclusive frequentar o bar da primeira
classe, desde que nós nos portássemos bem, não causando quaisquer distúrbios.
Nenhum de nós estará aqui por ter ido «duas vezes à missa» nem, tão pouco, viajamos em recreio para uma
colónia de férias num destino paradisíaco − muitos de nós,
nem imaginará sequer o destino que lhes estará reservado; nenhum de nós, em
consciência, sabe ao que vai; o inferno que irão encontrar pela frente no já
rotulado de «Vietname português» − mas, apesar de muitos dos que aqui vão serem avessos e
alguns “corrécios”, pelo que sei e
ouço destes camaradas ainda ninguém matou ninguém, apesar do camarada em
questão e o civil andarem pr’ali a rodopiar numa bulha, cada um exibido em
riste a sua naifa, como verdadeiros rufias. Foram imediatamente apartados e,
segundo ouço, o camarada foi encafuado
na “casa das ratas”, no meio do
gorgulho, improvisada num dos porões entre mercadorias.
Neste momento é meia-noite
− em Lisboa, uma da manhã. Estou a terminar de escrever este
diário na esplanada da primeira classe, situada no
tombadilho da popa e, de feição com o meu estado de espírito, ouço a mesma
música terna e sonolenta a sair do meio da penumbra do bar: − «...eu tão só, tão
só/Sem ninguém para amar...» pelo Conjunto Académico João Paulo que,
ao adiantado da hora, me convida a descer até à tarimba. Antes de me levantar,
elevo os braços acima da cabeça, junto as mãos entrelaçando os dedos, estico-os
pressionando a nuca ao mesmo tempo que me reclino nas costas da cadeira, ergo
os olhos ao céu para meditar: vejo no firmamento a mesma lua, as mesmas
estrelas… ao caminhar, na direção do convés da proa, ao longe, entre o
horizonte e o navio, a bombordo, uma montanha de luz que são, sem dúvida, de um
outro navio emerso nas mesmas águas do oceano e imerso na mesma ténue
escuridão.
Tenho feito alguns desenhos, a carvão, de fisionomias e
ganho, até, algum dinheiro. Amanhã por esta hora, se Deus quiser, devemos estar
em terras de Cabo-Verde.
¹ [Termo usado na gíria militar
a castigos, pequenos ou grandes, por infrações disciplinares.]
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