quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Vivi um instante de desespero e loucura


        
        1966
09 de Novembro
Quarta-feira, 21h00


Estou na esplanada do café Universal, um dos cafés com maior concentração de tropas, situado na Praça Honório Barreto, na companhia de mais três camaradas tendo que pedir, a um deles, dinheiro emprestado para beber um café. Estou sem dinheiro e o fim do mês a inda vem muito longe.
Ainda sou muito novo e já vivi algumas situações de desespero mas, até aqui, esta é a pior de todas.
Por dormir algumas noites ao relento os meus ossos já começaram a ressentir-se da friagem da madrugada e a noite passada procurei uma tarimba desocupada que, pensei eu, pelo adiantado da hora não teria ocupante.
Deite-me vestido sobre a enxerga e, ainda mal tinha começado a dormir, logo fui sacudido violentamente com toda a força, por um “nharro”, brutamontes, a berrar que a cama lhe pertencia, que tinha pago ‘100 pesos’, (100 escudos), por ela, e daqui, e dacolá, palavrões pr’áqui e pr’acolá, até que toda a caserna acordou.
Não obstante ter-lhe explicado que, quando nela me deitei, não tinha qualquer marcação visto até, a maior parte delas se encontrarem apenas com o colchão, como era o caso desta.
Calando na minha alma a raiva e o ódio deste momento, levantei-me, raivoso e embrutecido, arrastando as botas que me serviam de travesseira, enfiei-as nos pés e, quebrantado, saí para o alpendre da caserna. Oh sorte malvada!
Sentei-me a um canto, no chão de cimento, sob o alpendre, com as costas amparadas pela parede da caserna, levantando os joelhos, abraçando-os cruzando os braços e debruçando-me sobre eles. A minha cabeça pendeu sobre o peito e rangi de raiva, de dor, impotente, batendo-a sucessivamente contra os joelhos.  
Passado alguns instantes, levantei a cabeça e olhei o céu, na esperança de encontrar a minha estrela da boa-sorte. Debalde! Não existiam estrelas! A infinita abóbada celestial estava coberta, a esta hora, a raiar a madrugada, de um denso e intenso manto cor de fogo com laivos doirados, vermelhos; leves e carregados, de azuis-cinza; ora claros, ora escuros e muito escuros, como ainda não tinha visto antes. A noite estava serena e transparente. O ar espelhava uma cor incandescida, refletida pela vastidão do sob céu do firmamento. Na savana ouvia-se, não muito longe, os sons noctívagos entoados pela vida selvagem e, ao meu redor, numa dança inquietante, fremiam os insetos noturnos, ao mesmo tempo que uma leve aragem quente e ofegante, trazendo o aroma da selva, me banhava a face. O momento é de profunda reflexão e de desalento.
Pensei em Deus e meditei no Seu castigo. Tornei a olhar, impotente, este céu do meu desespero, ao mesmo tempo tenebroso e infinitamente deslumbrante. O manto celeste, que nele descrevi, remoinha agora numa dança delirante de cores exuberantes e as mistura entre si numa paleta gigante de colorações indescritíveis que parece rasar o telhado do alpendre e que a todo o momento vai desabar sobre mim.
Neste torvelinho abriram-se fendas gigantescas e, através, em profundidade, vejo resplendente o azul vítreo da quietude dos lagos que me acalma deste sofrimento angustiante e me arrebata súbita e docemente para memórias longínquas dos deslumbrantes luares do estio, nos campos da minha aldeia, nos meus tempos de menino. 
Como homem mais velho da casa, acompanhava a minha Mãe e a minha Avó na rega do milho. Enquanto elas, entre extremas, de saias arregaçadas para a cinta, chafurdavam com os pés tangendo a água por meio das canas que cresciam da terra escalavrada eu ficava deitado no comareiro sobre uma manta rota de trapos, rodeado de pequenas luzinhas cintilantes dos pirilampos, a contemplar o azul-cinza do céu, o brilho cintilante das estrelas longínquas, o esplendor das noites de lua-cheia dos luares de Agosto a abraçar os campos com a sua magnânima luminosidade e a ouvir, de perto, a grilhada dos ralos da noite e, mais distante, nos quintais, o latido dos cães a latir à sua enorme caraça. Lágrimas sufocantes, desprenderam-se dos meus olhos, rolaram pelas faces da cara e caíram, algumas, entre os lábios. Engoli asperamente o travo amargo da minha desdita que começo a sentir-lhe o sabor… o fel da frustração.
 Vivi um instante de desespero e loucura. Desde há muito tempo, que me lembre, foi a primeira vez que chorei assim, abruptamente, enraivecido e, foi também, a primeira vez que senti ódio. Um ódio brutal em tudo quanto me rodeia. Em tudo quanto contribuiu para esta minha desventura. Oh, como me sinto só, abandonado e inútil neste momento! Tudo é confusão e desespero na minha alma.
Quando medito em Deus penso que me condenou a este degredo e maldigo da Sua justiça. Oh, que Ele me perdoe! Quem sou eu, alma simples e mortal. Não tenho o direito de O julgar. Que Ele me valha! Estou a alucinar.
Acabei por adormecer, meio estirado, meio encolhido, nos bancos da cabina de uma GMC, acompanhado pelos mosquitos que, sem dar tréguas, atravessavam em voo rasante as duas portas sem os vidros, não paravam de me ferrar. Acordei poucas horas depois, ao primeiro toque da alvorada, todo arrepanhado, com os ossos feitos num molho e todo ferrado.
Já não era a primeira vez. 

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