1966
14 de Novembro
Segunda-feira, 11h00
Estou no quartel da
Amura, na companhia do camarada e amigo Rui de Vasconcelos.
Vim aqui ter com
ele para conversarmos a respeito da nossa situação. Estamos sem dinheiro,
completamente “tesos” e não
imaginamos, ainda, uma forma de o arranjar.
Ambos escrevemos um artigo para o jornal «O Arauto» Diário
da Guiné Portuguesa. Ao mesmo, juntamos um desenho de um dos recantos
pitorescos desta cidade, visto da esplanada do café Universal, que é a
Praça Honório Barreto com a estátua central que lhe dá o nome. Mas não resultou
em mais que um
muito bem, obrigado.
Dirigimo-nos, também, ao Movimento Nacional Feminino, (MNF), e nada. Resta-nos a esperança, agora, de um oficial
amigo do meu camarada.
O que nos atrapalha é a nossa colocação fixa em uma unidade. Por
ter-mos vindo em rendição individual ,
estamos a viver uma incerteza sem saber para onde vamos.
Estou a escrever e a coçar-me ao mesmo
tempo. O meu corpo é uma vítima dos insetos. Este calor húmido, insuportável e
desgastante, provoca-nos uma sensação de mal-estar fora e dentro do nosso
organismo. A nossa transpiração, juntamente com o cacimbo, transforma-se num
líquido viscoso e peganhento; pega-se, colando a roupa, sempre encharcada, ao
nosso corpo e o odor nauseento do ar que respiramos causa-nos, constantemente,
uma sensação de vómito.
Li, no diário «O Arauto», o Boletim Meteorológico, do passado dia 12, as seguintes temperaturas do ar: máxima, 38ºC; mínima, 29ºC. Humidade máxima, 92%; mínima, 73%¹. Por aqui se pode verificar quão quente e húmido é este clima.
Li, no diário «O Arauto», o Boletim Meteorológico, do passado dia 12, as seguintes temperaturas do ar: máxima, 38ºC; mínima, 29ºC. Humidade máxima, 92%; mínima, 73%¹. Por aqui se pode verificar quão quente e húmido é este clima.
Não tenho dormido o suficiente. As condições da caserna não
permitem. Este quartel, como já referi, é de transição de tropas para outras
unidades e cada um que se desenrasque. – Como se diz na gíria militar; «a tropa manda desenrascar».
Contam os camaradas que as casernas nos outros quartéis pouco melhor são, já para não falar nas casernas dos aquartelamentos no ‘mato’. Neste quartel, as casernas são feitas com materiais de baixíssima qualidade e cobertas a chapa de zinco tornando-asem
autênticas torradeiras de desidratação. Atrevo-me a dizer sem
exagero que, e a ajuizar pela forma de como somos acolhidos, estes armazéns são
autênticos depósitos de carne humana pra canhão.
Ontem, Domingo, na parte da manhã, estive de sentinela ao Posto Emissor da Aeronáutica Civil que fica a pouca distância deste quartel. Fora isto, a vida que levo não é má. Apetece-me dizer; é péssima!
Contam os camaradas que as casernas nos outros quartéis pouco melhor são, já para não falar nas casernas dos aquartelamentos no ‘mato’. Neste quartel, as casernas são feitas com materiais de baixíssima qualidade e cobertas a chapa de zinco tornando-as
Ontem, Domingo, na parte da manhã, estive de sentinela ao Posto Emissor da Aeronáutica Civil que fica a pouca distância deste quartel. Fora isto, a vida que levo não é má. Apetece-me dizer; é péssima!
Nos dias em que não estou de serviço, pondo-me à boleia, venho para a cidade e encontro-me com os camaradas de bordo e amigos. A maior parte deles, já foram colocados
Os dois camaradas amigos, do meu sítio, que encontrei após
aqui ter chegado, são Comandos Operacionais − tropa de elite – e a sua unidade fica circunscrita
nesta área do quartel de Adidos.
Ontem, Domingo, a seguir ao almoço, vieram ter comigo,
trouxeram uma garrafa de brande e uma caixa com biscoitos e, pr’ali num
descampado, «os três da vida airada»,
à sombra da copa frondosa de um cajueiro, pusemo-nos a beber e a mastigar,
falando de coisas longínquas.
Não havia copos e cada um, à sua vez, beberricava pelo
gargalo.
Já o brande estava a chegar ao fim da garrafa e a conversa
a ficar sem nexo quando, a cortar o ar, como que um grito de agonia a clamar
por alguém, ressoa friamente o eco estridente e penetrante de uma sirena.
Era o chamamento dos Comandos, que estavam dispersos pelo
recinto, para se apresentarem na Companhia, para mais uma operação de resgate.
Peguei atabalhoadamente na garrafa, meti o gargalo à boca e
acabei com o resto de brande que ainda restava.
Não dei por mais nada. Senti a cabeça a rodopiar e a
pesar-me sobre os ombros. Deixei o corpo tombar para trás, abri os braços e
devo ter adormecido durante muito tempo.

Sem comentários:
Enviar um comentário