quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Vivo na angústia de saber o meu destino


1966
14 de Novembro
Segunda-feira, 11h00

Estou no quartel da Amura, na companhia do camarada e amigo Rui de Vasconcelos.
Vim aqui ter com ele para conversarmos a respeito da nossa situação. Estamos sem dinheiro, completamente “tesos” e não imaginamos, ainda, uma forma de o arranjar.
Ambos escrevemos um artigo para o jornal «O Arauto» Diário da Guiné Portuguesa. Ao mesmo, juntamos um desenho de um dos recantos pitorescos desta cidade, visto da esplanada do café Universal, que é a Praça Honório Barreto com a estátua central que lhe dá o nome. Mas não resultou em mais que um muito bem, obrigado.    
Dirigimo-nos, também, ao Movimento Nacional Feminino, (MNF), e nada. Resta-nos a esperança, agora, de um oficial amigo do meu camarada. 
O que nos atrapalha é a nossa colocação fixa em uma unidade. Por ter-mos vindo em rendição individual, estamos a viver uma incerteza sem saber para onde vamos.
Estou a escrever e a coçar-me ao mesmo tempo. O meu corpo é uma vítima dos insetos. Este calor húmido, insuportável e desgastante, provoca-nos uma sensação de mal-estar fora e dentro do nosso organismo. A nossa transpiração, juntamente com o cacimbo, transforma-se num líquido viscoso e peganhento; pega-se, colando a roupa, sempre encharcada, ao nosso corpo e o odor nauseento do ar que respiramos causa-nos, constantemente, uma sensação de vómito.
Li, no diário «O Arauto», o Boletim Meteorológico, do passado dia 12, as seguintes temperaturas do ar: máxima, 38ºC; mínima, 29ºC. Humidade máxima, 92%; mínima, 73%¹. Por aqui se pode verificar quão quente e húmido é este clima.

Não tenho dormido o suficiente. As condições da caserna não permitem. Este quartel, como já referi, é de transição de tropas para outras unidades e cada um que se desenrasque. – Como se diz na gíria militar; «a tropa manda desenrascar».
Contam os camaradas que as casernas nos outros quartéis pouco melhor são, já para não falar nas casernas dos aquartelamentos no ‘mato’. Neste quartel, as casernas são feitas com materiais de baixíssima qualidade e cobertas a chapa de zinco tornando-as em autênticas torradeiras de desidratação. Atrevo-me a dizer sem exagero que, e a ajuizar pela forma de como somos acolhidos, estes armazéns são autênticos depósitos de carne humana pra canhão.

Ontem, Domingo, na parte da manhã, estive de sentinela ao Posto Emissor da Aeronáutica Civil que fica a pouca distância deste quartel. Fora isto, a vida que levo não é má. Apetece-me dizer; é péssima!


Artigo para o Jornal «O Arauto» − Diário da Guiné Portuguesa
       13 de Novembro de 1966 
                
       
         Nos dias em que não estou de serviço, pondo-me à boleia, venho para a cidade e encontro-me com os camaradas de bordo e amigos. A maior parte deles, já foram colocados em quartéis da cidade ou repartições. Outros foram para quartéis de outras cidades ou aquartelamentos no mato. Vivo na angústia de saber o meu destino. Estou sempre à espera de uma boa oportunidade. Já que tive este azar, tenha ao menos, agora, a sorte de uma colocação razoável.

Os dois camaradas amigos, do meu sítio, que encontrei após aqui ter chegado, são Comandos Operacionais −  tropa de elite – e a sua unidade fica circunscrita nesta área do quartel de Adidos.         
Ontem, Domingo, a seguir ao almoço, vieram ter comigo, trouxeram uma garrafa de brande e uma caixa com biscoitos e, pr’ali num descampado, «os três da vida airada», à sombra da copa frondosa de um cajueiro, pusemo-nos a beber e a mastigar, falando de coisas longínquas.
Não havia copos e cada um, à sua vez, beberricava pelo gargalo.
Já o brande estava a chegar ao fim da garrafa e a conversa a ficar sem nexo quando, a cortar o ar, como que um grito de agonia a clamar por alguém, ressoa friamente o eco estridente e penetrante de uma sirena.
Era o chamamento dos Comandos, que estavam dispersos pelo recinto, para se apresentarem na Companhia, para mais uma operação de resgate.
Peguei atabalhoadamente na garrafa, meti o gargalo à boca e acabei com o resto de brande que ainda restava.
Não dei por mais nada. Senti a cabeça a rodopiar e a pesar-me sobre os ombros. Deixei o corpo tombar para trás, abri os braços e devo ter adormecido durante muito tempo.


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¹ [Os termómetros, não raras vezes, chegavam a marcar temperaturas à roda dos 50ºC

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