sábado, 11 de novembro de 2017

Á custa dos uísques do Grande Hotel


         1967
         14 de Outubro
 Sábado, 22h00
 

    Secção. Ao contrário do capítulo anterior sinto-me bastante feliz por ter acabado com êxito o retrato que já tinha repetido por duas vezes e, acho este, modéstia à parte, francamente melhor que o último. Sinto que dominei bastante melhor o esbatimento das cores e a harmonia contrastante entre elas.
 
        O «Conjunto Académico João Paulo» está em Bissau a cumprir o serviço militar. Já atuou para nós no Quartel-General. O espetáculo foi pequeno mas agradável, a despeito dos soldados ficarem todos de pé e a monte. Apesar de ter sido anunciado que este espetáculo era dedicado às praças, somente houve lugares sentados para a oficialada, sargentada e suas digníssimas esposas. As patentes tiveram lugares à frente, resguardados do resto da ralé.
O meu chefe já regressou da licença de férias que foi gozar à Metrópole.
        Logo no primeiro dia de trabalho, após o regresso, o «doutor Carlinhos» foi corrido da secção. O sargento Gonçalves fez queixa dele ao capitão e este afinfa-lhe com uma “porrada”, (auto disciplinar). Segundo ouço dizer; está metido numa boa embrulhada. Perderá todas as regalias que tem, correndo o risco de ser transferido para outra unidade. Ele tem-me um asco de morte, como se eu tivesse alguma culpa. Veio um primeiro-cabo substitui-lo. Mas, eu julgo que ele se vai safar, desenrascado e fura-vidas como é, vai dar a volta por cima, como já fez em outras ocasiões, à custa dos uísques do Grande Hotel.
Entrou mais um furriel para a secção que vem substituir o sargento Gonçalves. O furriel Santos foi de férias para a Metrópole e o chefe está pouco satisfeito com ele por não ter acabado o serviço que lhe estava destinado.

«Assalto ao ‘palhinhas’». Já há algum tempo, eu e o meu camarada sócio da “bianda”, notámos que o garrafão de vinho que temos para as nossas refeições se esvazia depressa demais. Por não acreditarmos que se evapore, apesar do calor e da sua graduação em álcool, na noite de ontem para hoje, pusemos uma marca na rolha e verificamos, de manhã, ao chegar à secção, que a rolha, onde tínhamos espetado um alfinete na direção da pega, não estava no mesmo lugar. Logo desconfiamos do sargento Abílio que, dorme num vão do compartimento superior da secção, anda a beber da nossa ‘água de Lisboa’, como dizem os de cá. Agora andamos a estudar a maneira de tirarmos a prova dos nove. Este facto tem a sua componente hilariante e começa a ser um passatempo, por andarmos a brincar aos detetives.     

Ontem fui ao cinema com o amigo camarada e sócio Torres ver «A Batalha das Ardenas», com Henry Fonda, Charles Bronson, George Montgomery, entre outros. Ao sairmos chovia torrencialmente e tivemos de ir de táxi para o quartel.
Não topo nada deste clima. Já há algum tempo que durante o dia está um sol e calor insuportável e à noite começa a chover torrencialmente.
Antes de começar a chover começa sempre por fazer uma ventania que varre tudo das ruas, até os transeuntes que fogem para se abrigarem da chuva, começando, pouco depois, a esgaçar uma chuva diluviana que se encarniça com estrépito contra o chão escaldante de alcatrão de tal maneira que, pincha em cachão borbulhante formando um estranho véu de névoa ondulante efervescente, até parece água a ferver dentro de uma grande panela.
Estas ventanias transformam-se em autênticos tornados que surgem inesperadamente sem pré-aviso. De momento tudo parece estar calmo e, de repente, sem qualquer sinal, levam tudo à frente começando de imediato a chover torrencialmente uma chuva tão forte quanto a ventania.
Estes ventos, como é dos livros, por nos encontrarmos na zona tropical Norte entre a linha do Equador e a do Trópico de Câncer, provêm do deserto do Sara, a Nordeste, e arrastam consigo grandes quantidades de poeiras, que tornam o ar ainda mais irrespirável, entupindo e lesionando as nossas vias respiratórias.

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