1967
14 de Outubro
Sábado, 22h00
Secção. Ao contrário do capítulo anterior
sinto-me bastante feliz por ter acabado com êxito o retrato que já tinha
repetido por duas vezes e, acho este, modéstia à parte, francamente melhor que
o último. Sinto que dominei bastante melhor o esbatimento das cores e a
harmonia contrastante entre elas.
O «Conjunto Académico João Paulo» está em Bissau a cumprir
o serviço militar. Já atuou para nós no Quartel-General. O espetáculo foi
pequeno mas agradável, a despeito dos soldados ficarem todos de pé e a monte.
Apesar de ter sido anunciado que este espetáculo era dedicado às praças, somente
houve lugares sentados para a oficialada, sargentada e suas digníssimas
esposas. As patentes tiveram lugares à frente, resguardados do resto da ralé.
O meu chefe já regressou da licença de férias que foi gozar
à Metrópole.
Logo no primeiro dia de trabalho, após o regresso, o «doutor Carlinhos» foi corrido da secção. O sargento Gonçalves
fez queixa dele ao capitão e este afinfa-lhe
com uma “porrada”, (auto disciplinar). Segundo ouço dizer;
está metido numa boa embrulhada. Perderá todas as regalias
que tem, correndo o risco de ser transferido para outra unidade. Ele tem-me um
asco de morte, como se eu tivesse alguma culpa. Veio um primeiro-cabo
substitui-lo. Mas, eu julgo que ele se vai safar, desenrascado e fura-vidas
como é, vai dar a volta por cima, como já fez em outras ocasiões, à custa dos
uísques do Grande Hotel.
Entrou mais um furriel para a secção que vem substituir o
sargento Gonçalves. O furriel Santos foi de férias para a Metrópole e o chefe
está pouco satisfeito com ele por não ter acabado o serviço que lhe estava
destinado.
«Assalto ao ‘palhinhas’». Já há algum
tempo, eu e o meu camarada sócio da
“bianda”, notámos que o garrafão de vinho que temos para as nossas
refeições se esvazia depressa demais. Por não acreditarmos que se evapore,
apesar do calor e da sua graduação em álcool, na noite de ontem para hoje,
pusemos uma marca na rolha e verificamos, de manhã, ao chegar à secção, que a
rolha, onde tínhamos espetado um alfinete na direção da pega, não estava no
mesmo lugar. Logo desconfiamos do sargento Abílio que, dorme num vão do
compartimento superior da secção, anda a beber da nossa ‘água de Lisboa’, como dizem os de cá. Agora andamos a estudar a
maneira de tirarmos a prova dos nove.
Este facto tem a sua componente hilariante e começa a ser um passatempo, por
andarmos a brincar aos detetives.
Ontem fui ao cinema com o amigo camarada e sócio Torres ver «A Batalha das Ardenas», com Henry
Fonda, Charles Bronson, George Montgomery, entre outros. Ao sairmos chovia torrencialmente e tivemos de ir de táxi para o
quartel.
Não topo nada
deste clima. Já há algum tempo que durante o dia está um sol e calor
insuportável e à noite começa a chover torrencialmente.
Antes de começar a chover começa sempre por fazer uma
ventania que varre tudo das ruas, até os transeuntes que fogem para se
abrigarem da chuva, começando, pouco depois, a esgaçar uma chuva diluviana que
se encarniça com estrépito contra o chão escaldante de alcatrão de tal maneira
que, pincha em cachão borbulhante formando um estranho véu de névoa ondulante
efervescente, até parece água a ferver dentro de uma grande panela.
Estas ventanias transformam-se em autênticos tornados que
surgem inesperadamente sem pré-aviso. De momento tudo parece estar calmo e, de
repente, sem qualquer sinal, levam tudo à frente começando de imediato a chover
torrencialmente uma chuva tão forte quanto a ventania.
Estes ventos, como é dos livros, por nos encontrarmos na
zona tropical Norte entre a linha do Equador e a do Trópico de Câncer, provêm
do deserto do Sara, a Nordeste, e arrastam consigo grandes quantidades de
poeiras, que tornam o ar ainda mais irrespirável, entupindo e lesionando as
nossas vias respiratórias.
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