segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Um braço erguido a segurar, outro caído a dar-a-dar

                            
        1967
        30 de Outubro
Segunda-feira, 14h0o


 

   Depois de alguma ausência retomo as minhas narrativas, começando por dizer que as ‘coisas’ pioraram no que toca à Ronda Ambulante. Este serviço passou a ser extensivo ao patrulhamento das tabancas ao redor da cidade.
        Houve várias detenções de supostos terroristas neste perímetro e o comando teme que possa haver, pela calada da noite, algum atentado a um quartel.
        Quer isto dizer que estamos “lixados”. Um serviço destes calhava-me de 15 em 15 dias e agora, como triplicou o pessoal para o patrulhamento, sendo o pessoal o mesmo, estamos a “alinhar” de cinco em cinco dias. 
        Este patrulhamento é dividido por turnos e sectores; A, B e C, começando às 18 horas e terminando às seis horas da manhã do outro dia.
        Cada turno tem quatro horas e são compostos por seis homens, dois para cada sector, munidos de espingarda automática G3, com cinco carregadores de munições, duas granadas de mão defensivas e uma ofensiva, cada um. Já ontem “alinhei” no segundo turno, das 22 às duas horas da madrugada.
        Há o chamado pessoal da “linha” que é constituído por básicos e aqueles que, por não estarem colocados em nenhuma repartição, só fazem serviços. “Alinham” também de cinco em cinco dias e o resto do tempo folgam. Rica vida! O pessoal das patrulhas está todo o dia impedido, nas várias repartições e secções do quartel, e folga as primeiras quatro horas da manhã. Mas, somente, se o turno foi o das duas horas às seis.

        O meu sócio, camarada Torres está doente. Umas vezes está na caserna, outras vezes está na enfermaria. Tem sido uma maçada para lhe levar o comer. Algumas vezes não lho levo e ele lá se desenrasca. Outras vezes, arranjo um negrinho, a troco de uns pesos, (dinheiro), e lá vai ele, pé descalço, a palmilhar cerca de dois quilómetros e meio, com a marmita à cabeça, um braço erguido a segurar, outro caído «a dar-a-dar».
        Tenho muito trabalho na secção e outro tanto meu para fazer para além de que, principalmente, nesta hora do meio-dia, está um calor sufocante para andar abaixo e acima a levar a marmita com o comer ao camarada Torres. Mas, tendo de ser, lá me vou arranjando. Hoje por ele, amanhã por mim.

Inscrevi-me num curso de desenho por correspondência e já recebi as primeiras lições.
Fazer os trabalhos deste curso, as encomendas de retratos, pôr a correspondência em dia e escrever este diário tem-me ocupado todo o tempo que tenho livre.        
Este curso de desenho técnico com o nome de «Desenhador Industrial», do Centro de Ensino Técnico e Orientação Profissional, (CETOP), das Publicações Europa-América engloba desenho de máquinas e desenho de construção civil. Para além das componentes teóricas em arquitetura e engenharia tem, ainda, cálculo da resistência dos materiais, geometria descritiva e outras matérias. Penso que este curso é muito completo e tenho pena de o não ter descoberto há mais tempo.

        Tenho recebido correspondência da minha amiga Guadalupe, a «Malaguenha» que falei há três capítulos atrás e também, da minha namorada que agora, de momento, não me apraz pensar nela. Das minhas duas madrinhas de guerra é que, há muito tempo, não recebo correspondência. Aquilo já houve ditos e desditos com as três. Vamos esperar para ver. A Rosa, outra madrinha, é que tem escrito assiduamente. 

        O furriel Santos já voltou de férias e, agora, o chefe «por qualquer coisa» está sempre a implicar com ele. Dizem que ele está apanhado do clima e por isso tem de arranjar sempre uma vítima. Deixem-no andar. Enquanto malha num, os outros folgam as costas. Não fosse a rabugice do chefe e a minha falta de dinheiro, tudo estaria a correr normalmente bem. Esta minha constante falta de dinheiro já passa a ser um mal crónico. É como uma doença má. Esta enraíza-se e depois temos que viver com ela até descobrirmos um remédio que a cure.                  

        Ah! Já me esquecia de referir. O sargento Abílio, desconfiado da nossa marosca, veio ter connosco, à hora do nosso jantar, carregando dois garrafões de vinho, abraçados como se fossem dois meninos gémeos, (um branco e um preto) e confessou-nos ter sido ele quem bebia a nossa ‘água de Lisboa’. Pediu desculpas oferecendo-nos um dos garrafões, para nos compensar, ficando com o branco para si para afogar as suas mágoas nas longas noites de solidão.
         O sargento Abílio é pessoa para os seus 60 anos ou muito perto deles. É uma pessoa muito só, muito solitária, pouco convivente com os outros, mesmo com os da sua classe. Lamentou-nos que à noite quando se deita, aqui na secção, numa tarimba que arma quando se deita e desarma pela manhã se sente muito só e desamparado. No silêncio da noite − que só não é profundo por causa dos roedores noturnos que correm impunemente, num frenético festim, pelas prateleiras empoeiradas − é atacado pela nostalgia e insónias que lhe trazem recordações em catadupa e lhe martelam o juízo e lhe apertam a alma que, para as esquecer, tem de beber do tinto carrascão.
        As necessidades da família obrigaram-no a mais uma comissão de serviço no Ultramar, calhando-lhe, desta vez, a Guiné. Morreu-lhe um filho em Angola, nas matas de Nambuangongo, onde também já esteve por duas vezes, e faz esta comissão, que está perto do fim, para ajudar os netos que ainda são pequenos. Ele chorou e nós comovidos também.
 
 

Primeiro Caderno de Exercícios do Curso de Desenhador Industrial
do Centro de Ensino Técnico e Orientação Profissional – CETOP

       

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