1967
13
de Novembro
Segunda-feira, 13
h00
Uma anomalia ao
almoço. O Direito, um camarada meu conterrâneo, que entrou na sociedade da “bianda”, levantou-se de repelão da mesa
e, zangado, saiu desaustinado porta fora.
Eu estava a acabar de escrever uma carta para a Guadalupe e
disse-lhes para irem comendo que eu já estava a acabar. À que d’el-rei, não
começariam a comer sem que eu fosse dividir, como se eu fosse o chefe de mesa.
Insisti mais uma vez para não esperarem por mim porque
estava inspirado e, se interrompesse, lá se ia a minha musa inspiradora.
Fomos então para a mesa. O comer foi peixe com batatas e
carne com arroz de cabidela. Como era eu sempre que dividia o comer, comecei a
dividir o primeiro prato de peixe. O Direito entendeu que o prato dele estava
mal servido e ficou todo encrespado.
Disse-lhe: Eh pá! Não precisas de te enxofrares assim, não
foi intenção minha e que não havia problema algum. Ainda não tínhamos começado
a comer e sugeri fazer-se então, Justamente, a divisão ou então trocava-mos os
pratos ou, ainda, no segundo prato dividiria ele.
Não aceitou a minha sugestão para a resolução simples do
problema e, sem dar explicações, levantando-se,
ala moço que lá vai ele.
Ontem tirei uma série de fotografias com o meu amigo e
camarada Manuel que é lá dos meus sítios e
fomos depois, como se a ordem fosse rica, jantar ao restaurante. Ficaram os
meus sócios da “bianda” a ganhar.
Espero que as fotografias fiquem bem que é para mandar
algumas à amiga Lupe. É por este
diminutivo, do seu nome Guadalupe, que ela quer e gosta que eu a trate.
Lembro-me de uma namorada que, por ter lido um livro de Jorge Amado, − «Gabriela, Cravo e
Canela» − gostava e fazia questão que a tratasse
por Gabi, diminutivo do seu nome Gabriela.
Revejo-a no meu pensamento, muito gaiata, muito bonita, com
os seus 16 aninhos, quase 17, no seu corpo franzino envolto em vestidos de
chita e o seu rosto oval, levemente rosado, de pele macia e delicada, com
largos olhos castanhos, quentes e meigos, reluzentes cheios de luz, emoldurado
em lenços de seda, ora rosa, ora bege, ora…, elegantemente laçados sob o
queixo, como que a esconder da brisa os seus longos cabelos de um castanho-escuro
selvagem e eu, mancebo, com os meus 19, quando caminhávamos de mão dada pelo
parque, como se nada mais nos rodeasse, inocentes, crédulos e sonhadores e uma
cigana, vidente, abeirar-se de nós e nos ler la buena-dicha, dando continuidade às fantasias dos nossos sonhos.
Na palma das nossas mãos, entre linhas que se cruzam e
outras que se desencontram, são visionados amores, desamores, paixões
arrebatadoras e traições à má fila: à Gábi, ao mesmo tempo que as faces
aveludadas do seu rosto enrubesciam, diz-lhe que eu sou o grande amor da sua
vida e que por ela seria capaz de uma loucura... e fui. A mim, crédulo de
sobrolho franzido, diz-me que num horizonte não muito longínquo estava marcada
no meu destino uma malfadada viagem para além-mar... e estava.
− Aonde estás, Gábi?
- Aonde estás, minha Deanie?¹
* * *
«Teus olhos castanhos/de encantos tamanhos/são pecados
meus/são estrelas fulgentes/brilhantes, luzentes/caídas dos céus/Teus olhos risonhos/são
mundos, são sonhos/são a minha cruz/teus olhos castanhos/de encantos
tamanhos/são raios de luz...»²
* * *
Casou ainda menina com uma procuração e de mala aviada, atafulhada das suas bonecas de trapo mais os seus vestidos de chita e lenços de seda, − disse-me a mãe − foi ter com o marido à Alemanha; um gajo que foi comigo à inspeção militar e fugiu à tropa para não ter que vir pr’á guerra.
Acordo do sonho e volto à Lupe que, segundo as suas cartas, significo para ela um verdadeiro amigo e eu gosto muito de lhe escrever. Esperei bastante pela sua última correspondência, mas sei que a culpa é dos correios por andarem atrasados.
Estou a escrever-lhe e vou pedir-lhe para ser minha namorada. Penso que estou a ser um tanto atrevido e nem sequer ainda tenho a sua fotografia, embora já prometesse enviar-ma.
A minha namorada tem-me escrito e também a Rosa que aceitou o meu pedido de namoro. Estou aqui, estou um Don Joan!
* * *
O Jorge Guimarães já regressou da Metrópole, do gozo da licença de férias, e trouxe-me todo o material que lhe pedi para me trazer. A minha Mãe mandou-me, por ele, uns petiscos e 200 escudos.
Casou ainda menina com uma procuração e de mala aviada, atafulhada das suas bonecas de trapo mais os seus vestidos de chita e lenços de seda, − disse-me a mãe − foi ter com o marido à Alemanha; um gajo que foi comigo à inspeção militar e fugiu à tropa para não ter que vir pr’á guerra.
Acordo do sonho e volto à Lupe que, segundo as suas cartas, significo para ela um verdadeiro amigo e eu gosto muito de lhe escrever. Esperei bastante pela sua última correspondência, mas sei que a culpa é dos correios por andarem atrasados.
Estou a escrever-lhe e vou pedir-lhe para ser minha namorada. Penso que estou a ser um tanto atrevido e nem sequer ainda tenho a sua fotografia, embora já prometesse enviar-ma.
A minha namorada tem-me escrito e também a Rosa que aceitou o meu pedido de namoro. Estou aqui, estou um Don Joan!
* * *
«...Cartas de amor/Quem as não tem/Cartas de
amor/Pedaços de dor/Sentidas de alguém... Porém de ti/Nem sequer uma carta de
amor/Uma carta vulgar recebi/Pra acalmar minha dor...»³
* * *
Gosto muito de escrever; dá-me conforto. Quando escrevo
fico mais descomprimido. Ajuda-me melhor a passar o tempo preocupando-me por arranjar
assuntos para narrar, sobretudo temas que façam vibrar as cordas do meu ser.
O Jorge Guimarães já regressou da Metrópole, do gozo da licença de férias, e trouxe-me todo o material que lhe pedi para me trazer. A minha Mãe mandou-me, por ele, uns petiscos e 200 escudos.
Desde o mês passado que cortei a pensão, que tinha deixado
na Metrópole, e passei a receber cá a massa
toda.
Por um lado penso que fiz mal, pois dava jeito chegar ao
Continente e ter algum dinheiro amealhado até que arranje emprego mas, por
outro lado, penso que aqui ainda me dá mais jeito.
O curso de desenho, que ando a fazer, vai levar-me 400
escudos por mês, mais as despesas de correio. Embora parecendo caro é porque
vou passar a estudar quatro cadernos por mês que é para quando chegar à
Metrópole, que se Deus quiser será para daqui a um ano, o ter já acabado e ter
mais facilidade em conseguir um emprego nesta área de trabalho. Ao mesmo tempo,
é uma forma de aproveitar melhor os tempos livres que tenho. E, assim, feitas
bem as contas, pouco me fica para os gastos gerais.
Tenho feito alguns
trabalhos em desenho de figura e é, de certa forma, o que me tem valido.
_____________
«Aquele brilho outrora tão resplandecente
Dos meus olhos se ausentou para sempre
E agora, apesar de perdido o esplendor na relva
E o tempo de glória em flor,
Em vez de chorarmos, buscaremos força
No que para trás deixamos».
Ou ainda, já depois, como o poema inspirado no filme de Paulo Rocha “Os Verdes Anos”:
Era o amor que chegava e partia:
estarmos os dois era um calor, que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo sem ninguém para ouvir:
eram enganos e era um medo a morte a rir
nos nossos verdes anos…
_____________
¹ [Depois de, mãos apertadas e dedos entrelaçados sobre o regaço, vermos o filme «Esplendor na Relva» de Elia Kazam: “Uma lição dura e triste da vida e do amor”, baseada no poema de William Wordsworth, interpretada pela muito bonita Natalie Woode, no papel de “Deanie”, também ela tão bonita como a Natalie, murmurarmos, de olhares enternecidos, palavras meigas e de amor, passei a chamar-lhe a minha Deanie por haver muitas parecenças, e qual delas a mais bonita, entre as três personagens, tanto no corpo, como no rosto, como no sentir, como… … Ilusões, ilusões dos verdes anos, como no poema "Intimations of Immortality"
Dos meus olhos se ausentou para sempre
E agora, apesar de perdido o esplendor na relva
E o tempo de glória em flor,
Em vez de chorarmos, buscaremos força
No que para trás deixamos».
Ou ainda, já depois, como o poema inspirado no filme de Paulo Rocha “Os Verdes Anos”:
Era o amor que chegava e partia:
estarmos os dois era um calor, que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo sem ninguém para ouvir:
eram enganos e era um medo a morte a rir
nos nossos verdes anos…
² [Canta Francisco José]




Sem comentários:
Enviar um comentário