segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Recomeçou o namoro que antes tinha


        1967
        21 de Novembro.
        Terça-feira, 21h00.

 
    Estou na secção. Já fiz as pazes com o Direito mas, em contrapartida, hoje, cortei relações com o Torres. Há muito que eu não estava a gostar das suas piadas sem fundamento. Aborreci-me tanto ao ponto de nem sequer querer ouvir mais as suas aventuras bazofeiras.
        Creio que ele terá inveja ou ciúmes daquilo que eu faço. Digo isto, porque ele gostava de desenhar e, segundo o que diz, não pode porque tem falta de vista e se a esforçar pensa que poderá perdê-la mais depressa.
        Acredito que seja verdade, porque ele usa óculos com lentes bastante grossas. Eu sinto que ele tem, até, um complexo de inferioridade por causa disso. Por esse motivo, ele, a pretexto de qualquer insignificância, está sempre com ‘tiradas’ para mim que quase sempre me irritam. Estou tão cheio que, hoje ao almoço, pouco faltou para lhe dar com um prato na cabeça só porque, quando comíamos, uma espinha de peixe caiu do meu prato para cima da toalha da mesa.
       
        Já deitei uma carta no correio para a Lupe na qual lhe fiz uma pequena narrativa da Guiné e da minha vida aqui enviando-lhe, ainda, quatro postais com vistas da cidade. Custou-me este devaneio 30 escudos.
        A Rosa escreveu-me uma carta muito desoladora. Muito como quem diz…! Diz-me que não pode ser minha namorada, por já estar em boa idade de casar e por isso recomeçou o namoro que antes tinha. Vá lá, ao menos foi sincera!
        Da Aida e da Maria das Dores, é que nunca mais recebi correspondência.

       Ontem fui ao cinema com o Jorge Guimarães e o Araújo ver um filme de suspense. «Rebecca», de Alfred Hitchcock; com Laurence Oliver e Joan Fontain, estreado em 1940.
        Na última vez que fui ao cinema, fui ver a vida de Miguel Ângelo em «Agonia e Êxtase», com Charlton Heston e Rex Harrison. Gostei muito. Este filme, baseado na obra de Irving Stone, retrata a vida e a obra do grande mestre Renascentista e a conflitualidade da sua criação com o conceito predominante.

       O primeiro-sargento Gonçalves vai amanhã embora para a Metrópole, no navio ALFREDO DA SILVA, e quem ficou no seu lugar foi o segundo-sargento Boavida mas quem o veio render foi o furriel Oliveira.

       Tudo tem corrido normalmente bem. Tenho desenhado bastante e presentemente ando a desenhar, em aerogramas, uns motivos de Boas-Festas para o Natal que está a aproximar-se.
        Fiz cinco destes desenhos para o furriel Santos e ele em troca ofereceu-me um isqueiro da marca Ronson. Dizem os meus camaradas que é o Ferrari dos isqueiros.


 

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