segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Um Rembrandt dos tempos de hoje


       1967
       08 de Dezembro
       Sexta-feira, 16h00

 

    Estou na secção um pouco aborrecido. Tenho que fazer mas não sei o que fazer. Neste instante, o meu estado de alma não está nos seus melhores momentos.
        Acabei há pouco um desenho a aguarelas e tinta-da-china, com um motivo de Boas-Festas para mandar à espanhola e não saiu tão bem como eu queria. Tentei recomeçá-lo por várias vezes para conseguir as cores e os tons que são desejáveis para o efeito. O meu espírito dizia-me que não era aquilo que tinha imaginado e desisti optando pelo primeiro.
        Acabei de desenhar, para mim, uma série de aerogramas, também com motivos de Boas-Festas, para enviar aos meus amigos e familiares.

Logo à noite estou de patrulha à Ronda Ambulante no turno das duas horas da madrugada às seis horas da manhã. São mesmo chatas estas patrulhas!
Gostaria de imaginar-me um Rembrandt dos tempos de hoje, a pintar uma «ronda − igualmente − da noite», ao redor das palhotas da tabanca com o título de «Ronda Ambulante». Modéstia à parte…, um pouco de humor, precisa-se.

        Agora, a minha secção tem um novo chefe. É major e o capitão Campos passa a ser seu subalterno o que é muito contra a sua vontade, mas é a hierarquia.

Já recebi o segundo caderno do curso de desenho. Já fiz os exercícios e já os enviei. Aguardo agora a classificação com o envio do próximo caderno.
        A classificação do exercício do primeiro caderno foi satisfatória mas, espero melhorá-la, com a continuação.
        A partir de Janeiro vou pedir para me enviarem quatro cadernos de exercícios por mês, para conseguir acabar o curso antes de passar à “peluda”. Se um caderno me custa 100 escudos irá ser 400 escudos o que terei de desembolsar todos os meses e vou ver-me à rasca para me aguentar. É sempre o mesmo problema. O dinheiro, o senhor dinheiro.
       Este mês ainda não tive nenhuma encomenda de desenho e parece-me que vai ser fraco.
       Já há muito tempo que não lia o Diário de Notícias e hoje li a notícia da grande tragédia das cheias em Lisboa e arredores. Fiquei bastante comovido com o drama das vítimas. Foi uma grande catástrofe.

Não sei que dizer mais. Estou um tanto ausente de mim mesmo. Será do cacimbo? Estarei eu a ficar cacimbado? Tenho de me pôr a pau!

1 comentário:

  1. Estás a fazer um óptimo trabalho.
    Parabéns pelo Sítio. Está muito bem construído.

    Abraço
    Santos Oliveira

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