sexta-feira, 3 de novembro de 2017

da companhia dos pés juntos… perfilados na horizontal

 
        1967
03 de Agosto
Quinta-feira, 23h00
 



    Fez hoje nove meses que cá cheguei. Se deus quiser, ainda me faltam quinze meses para terminar. É muito tempo!
Já não sou «piriquito» como aqui chamam, na gíria da tropa, àqueles que têm pouco tempo de Ultramar mas, os quinze meses que ainda me faltam, é muito tempo e custam muito a passar.

Hoje chegou um meu amigo e camarada de licença da Metrópole. Já lá estava quase há quatro meses e já pensava que teria desertado. Trouxe-me uma pequena encomenda e contou-me as novidades lá do sítio. Disse-me que, justificando a sua demora, como foi de férias nos TAM no regresso teve de aguardar vez no mesmo transporte.
 
Ontem, hoje e amanhã não podemos sair dos quartéis, porque estamos de prevenção. Estamos com receio de ser atacados.
Faz anos que, por esta altura, mais precisamente no dia de hoje, em 1959, no porto de Pidjiguiti desta cidade, houve uma insurreição que esteve na origem de uma greve de marinheiros e estivadores nativos, que exigiam aumento de salários, de que resultou muitos mortos e feridos causados pela violenta repressão da polícia, sendo este massacre a origem do inicio da luta armada pelos movimentos independentistas da Guiné, com o surgimento das primeiras incursões terroristas em 1961, e, ainda, a data deste trágico acontecimento coincidir com a data da realização da Conferência de Estados Africanos Independentes, em Monróvia, que proclama o direito à autodeterminação dos territórios coloniais.

Tenho tido pouco que fazer, na secção. Estão a efetuar-se as inspeções, vai para duas semanas, dos mancebos desta cidade e o trabalho da secção tem de, forçosamente, ficar para trás. São, aproximadamente, 700 indivíduos entre negros, mulatos e mestiços, inspecionando-se 60 por dia.
De manhã, à medida que vão sendo constituídos grupos, vão-se despindo, aguardando a sua vez para serem inspecionados, identificados, medidos, pesados, etc., etc. Mas, ai que fedor a catinga se liberta dos seus corpos suados e se espalha pelos três compartimentos da secção! O local não tem condições nenhumas para os receber e o que mais me chateia são eles sentarem-se, com aquelas “bundas” nuas e nauseabundas, em cima das nossas secretárias de trabalho. Ao fim do dia, está-se mesmo a ver quem tem de limpar a imundice!
Durante todo este tempo que dura a inspeção, sem fazer outros juízos, deu para ver que alguns destes corpos são de compleição atlética mas, outros, a maioria deles, apresenta sinais tortuosos de maus-tratos e má nutrição. Alguns mostram marcas nas costas de outrora terem sido chicoteados; outros, até marcas têm nos pulsos e nos tornozelos de terem sido acorrentados com grilhetas; outros são portadores de hérnias e varizes descomunais; alguns ostentam protuberantes e bizarras tatuagens gravadas na pele; muitos exibem um umbigo tão saliente da barriga, que até parece não sei o quê.    
 Reparei que alguns trazem amarrado aos órgãos genitais; uns ao pénis, outros aos testículos, uma espécie de saquinho que dá a ideia de lá dentro conter uma substância qualquer. Quando se lhes perguntava o que isso significava, respondiam que era um “ronco” e continha uma “mesinha” que tinha a ver com a ereção e a fecundidade.
 Quase todos são apurados para o serviço militar. Faz parte da chamada psicossocial, para evitar que se considerem descriminados e se passem para o «outro lado». Somente não eram incorporados os que tinham grande deficiência física; os que eram muito novos ainda e os que eram velhos demais.                
Na altura das inspeções todos querem vir para a tropa e se não forem incorporados na tropa das nossas fileiras, sê-lo-ão na tropa das milícias.
Não tendo, a maior parte deles, qualquer documento que os identifique e comprove a sua idade, muitos parecem novos demais e outros muito velhos. Na ânsia de terem garantidas três refeições diárias e, ainda, um salário, fazem um grande esforço para transmitirem a idade que julgam certa.
Muitos medem a idade pelas chuvas, dizendo que têm “20 chuvas”. Comentando nós, referindo-nos aos muito novos, que deve ter havido anos com mais de uma época das chuvas, e, aos muito velhos, que devem ter sido muitos os anos em que não choveu.
Muitos dos que são considerados inaptos, voltam no dia seguinte com um estratagema, na esperança de serem incorporados. Se são descobertos fazem-se de desentendidos falando a língua de outro dialeto e, ainda outro, se alguém entende este, para criar dúvidas e confusão no meio da balbúrdia, conseguindo alguns, com este expediente, serem integrados.

Esta semana “lerpei” com o correio da minha namorada. Parece-me que está a ‘falhar’. Amanhã há três distribuições de correio e talvez tenha mais sorte.

Ainda, para completar o capítulo anterior, importa aqui expressar duas narrativas que, por me sentir exausto da pesada carga emocional desse conteúdo, aí não o fiz.
A primeira, completa o último parágrafo, no que diz respeito aos preparativos para «a grande viagem».
Depois de selada, protegida pelo esquife − (feito das tais tábuas) − e identificada, a urna é levada para um depósito − «da companhia dos pés juntos» − (um tal armazém, junto ao cais, ainda em construção, que descrevi no inicio de cá ter chegado) − onde existem outros esquifes, «já perfilados, na posição horizontal, entre tábuas», que aí aguardam, «a última guia de marcha», o transporte para a metrópole, nos porões húmidos e bafientos de um navio qualquer carregado com um contingente de tropas que regressa¹.
No seguimento destes últimos três parágrafos descritos com algum humor satírico comenta-se que, quando estes lúgubres sucedimentos são temas de conversas de «jornal da caserna», muitos camaradas são aqui enterrados − aos «pedaços» −  e, as urnas vazias do corpo e da alma seguem assim para a Metrópole, equilibradas com o peso das pedras. Inúmeros casos há, em que somente parte do corpo é «despachado» sendo as partes em falta compensadas, no peso, com sacos de areia e, ainda, com a agravante imoral do custo das transladações para a metrópole ser suportado pelas famílias.²         
        A segunda tem a ver com o sonho macabro que tive ao adormecer depois de esgotadas as histórias que, também elas, algumas macabras, outras de humor irónico, contribuíram para me avivar recordações da minha infância que, há muito estavam adormecidas, num qualquer recôndito latente da minha alma.
Por ser o neto mais velho, teria eu entre os seis e 10 anos, recordo-me de ir pela mão da minha Avó, depois do pôr-do-sol, fazer companhia às pessoas da sua anterior geração que estavam moribundas às portas da morte.
Recordo-me que as pessoas morriam muito velhas. Definhando, na antecâmara da morte, numa cama ou recostadas numa cadeira de espaldar, demoravam meses, até anos, a irem para o outro mundo e quando, na minha inocência, perguntava:
 - Ó vó, porque é que estas pessoas demoram tanto a morrer?
 Ela, muito crente e beata, respondia-me:
 - Enquanto não expiarem todos os pecados que hão cometido na terra, as suas almas não entrarão no reino dos céus!
Era um costume, e ainda é, as pessoas da aldeia, depois de um dia de trabalho nas lides da lavoura, revezarem-se no acompanhamento da pessoa moribunda. Estas, sempre vestidas de escuro, sentavam-se numa sala, ou num quarto diminuto, e aí permaneciam, durante algumas horas, falando das coisas boas e más, mais das boas do que das más, da pessoa que, há muito recebera a extrema-unção, está a finar-se.
As pessoas entravam pela porta da sala. Outras entravam pela porta da cozinha e aí se abancavam. As que levavam crianças e no dia seguinte, ao romper da aurora, tinham de sair de casa para ir ao jornal, sendo o caso da minha Avó, − que ainda o sol mal raiava já ela ia, caminhos acima em direção ao monte, roçar mato, aproveitando a frescura da manhã − despediam-se da família e do moribundo, vinham-se embora.
O prolongamento da vida do agonizante, por muito tempo, desfalcava a despensa da família, mesmo que fossem lavradores abastados; pois que, os revezadores, mesmo não sendo convidados, compareciam sempre para ganharem a ceia.
Na casa dos jornaleiros não se revezavam. Nem pr’ós caldos de galinha do moribundo, quanto mais…! − Os pobres estavam sempre à espera que morresse um rico para ganharem a esmola de pão. 
Retenho na memória longínqua um titular da casa vir à sala anunciar que a pessoa moribunda acabara de falecer e a sua alma já ia a caminho do céu.
 No meio das ladainhas e dos choros das carpideiras, que estavam sempre presentes, as tais que entravam pela porta da cozinha, do zunzum e dos cochichos da sala, ouviam-se, entre outros, os seguintes desabafos:
 - Pois! Eu pensei logo que desta noite não passavas!
 Cochichava outra:
 - Há muito tempo que estava mais pra lá do que pra cá e as noras já andavam desnorteadas! Nem pra ele, nem pra elas, coitadas! Foi melhor assim! Deus tenha piedade e a sua alma em paz!
Junto ao ouvido da minha Avó, ouço um cochicho muito abafado:
 - Eu vi logo! As ‘almofadeiras’ entraram muito sorrateiramente e apressadas p’rá cozinha, juntamente com as carpideiras…! 
Benzeduras e abrenúncios:
- Credo, Jesus, Maria!
Não obstante, a minha insistente curiosidade de garoto, não cheguei, à época, a compreender o significado das palavras carpideiras e ‘almofadeiras’. Embora as primeiras estivessem bem à vista, as outras saíam como entravam; escondidas na escuridão da noite, envoltas em seus xailes negros, de cabeça baixa metida entre os ombros. Somente muito mais tarde, nos ditos daqui e dacolá, vim a descortinar destes, e doutros, lúgubres actos com os velhos agarrados à vida na sua fase final na tentativa de enganar a morte.    

 
________________
¹  [Era sabido que o regime escondia os mortos, principalmente os mortos em combate.]
2 [A partir de Março deste ano, depois de muitos bramidos silenciosos e com a achega do MNF, o regime determina que os corpos tombados em combate, e em outras causas de morte, serão transladados para as suas terras a expensas do governo. Só que, dizia-se, na altura, à «boca-cheia», as famílias dos oficiais é que beneficiavam deste direito. As famílias endinheiradas dos soldados continuavam a suportar à sua custa o retorno dos seus entes caídos. Os outros ficavam lá no silêncio dos esquecidos.]

 

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