1967
03 de Agosto
Quinta-feira, 23h00
Fez hoje nove meses que cá cheguei. Se deus quiser, ainda me faltam
quinze meses para terminar. É muito tempo!
Já não sou «piriquito» como aqui chamam, na gíria da tropa, àqueles que têm
pouco tempo de Ultramar mas, os quinze meses que ainda me faltam, é muito tempo
e custam muito a passar.
Hoje chegou um meu amigo e
camarada de licença da Metrópole. Já lá estava quase há quatro meses e já
pensava que teria desertado. Trouxe-me uma pequena encomenda e contou-me as
novidades lá do sítio. Disse-me que, justificando a sua
demora, como foi de férias nos TAM no
regresso teve de aguardar vez no mesmo transporte.
Ontem, hoje e amanhã não podemos
sair dos quartéis, porque estamos de prevenção. Estamos com receio de ser
atacados.
Faz anos que, por esta altura,
mais precisamente no dia de hoje, em 1959, no porto de Pidjiguiti desta cidade,
houve uma insurreição que esteve na origem de uma greve de marinheiros e
estivadores nativos, que exigiam aumento de salários, de que resultou muitos
mortos e feridos causados pela violenta repressão da polícia, sendo este
massacre a origem do inicio da luta armada pelos movimentos independentistas da
Guiné, com o surgimento das primeiras incursões terroristas em 1961, e, ainda,
a data deste trágico acontecimento coincidir com a data da realização da
Conferência de Estados Africanos Independentes, em Monróvia, que proclama o
direito à autodeterminação dos territórios coloniais.
Tenho tido pouco que fazer, na
secção. Estão a efetuar-se as inspeções, vai para duas semanas, dos mancebos
desta cidade e o trabalho da secção tem de, forçosamente, ficar para trás. São,
aproximadamente, 700 indivíduos entre negros, mulatos e mestiços, inspecionando-se
60 por dia.
De manhã, à medida que vão sendo
constituídos grupos, vão-se despindo, aguardando a sua vez para serem inspecionados,
identificados, medidos, pesados, etc., etc. Mas, ai que fedor a catinga se
liberta dos seus corpos suados e se espalha pelos três compartimentos da
secção! O local não tem condições nenhumas para os receber e o que mais me
chateia são eles sentarem-se, com aquelas “bundas”
nuas e nauseabundas, em cima das
nossas secretárias de trabalho. Ao fim do dia, está-se mesmo a ver quem tem de
limpar a imundice!
Durante todo este tempo que dura a inspeção, sem fazer
outros juízos, deu para ver que alguns destes corpos são de compleição atlética
mas, outros, a maioria deles,
apresenta sinais tortuosos de maus-tratos e má nutrição. Alguns mostram marcas
nas costas de outrora terem sido chicoteados; outros, até marcas têm nos pulsos e nos tornozelos de
terem sido acorrentados com grilhetas; outros são portadores de hérnias e
varizes descomunais; alguns ostentam protuberantes e bizarras tatuagens
gravadas na pele; muitos exibem um umbigo tão saliente da barriga, que até
parece não sei o quê.
Reparei que alguns
trazem amarrado aos órgãos genitais; uns ao pénis, outros aos testículos, uma
espécie de saquinho que dá a ideia de lá dentro conter uma substância qualquer.
Quando se lhes perguntava o que isso significava, respondiam que era um “ronco” e continha uma “mesinha” que
tinha a ver com a ereção e a fecundidade.
Quase todos são apurados
para o serviço militar. Faz parte da chamada psicossocial, para evitar que se considerem descriminados e se
passem para o «outro lado». Somente
não eram incorporados os que tinham grande deficiência física; os que eram
muito novos ainda e os que eram velhos demais.
Na altura das inspeções todos querem vir para a tropa e se
não forem incorporados na tropa das nossas fileiras, sê-lo-ão na tropa das
milícias.
Não tendo, a maior parte deles, qualquer documento que os
identifique e comprove a sua idade, muitos parecem novos demais e outros muito
velhos. Na ânsia de terem garantidas três refeições diárias e, ainda, um
salário, fazem um grande esforço para transmitirem a idade que julgam certa.
Muitos medem a idade pelas chuvas, dizendo que têm “20 chuvas”. Comentando nós,
referindo-nos aos muito novos, que deve ter havido anos com mais de uma época
das chuvas, e, aos muito velhos, que devem ter sido muitos os anos em que não
choveu.
Muitos dos que são considerados inaptos, voltam no dia seguinte
com um estratagema, na esperança de serem incorporados. Se são descobertos
fazem-se de desentendidos falando a língua de outro dialeto e, ainda outro, se
alguém entende este, para criar dúvidas e confusão no meio da balbúrdia,
conseguindo alguns, com este expediente, serem integrados.
Esta semana “lerpei”
com o correio da minha namorada. Parece-me que está a ‘falhar’. Amanhã há três distribuições de correio e talvez tenha mais sorte.
Ainda, para completar o capítulo
anterior, importa aqui expressar duas narrativas que, por me sentir exausto da
pesada carga emocional desse conteúdo, aí não o fiz.
A primeira, completa o último
parágrafo, no que diz respeito aos preparativos para «a grande viagem».
Depois de selada, protegida pelo
esquife − (feito das tais tábuas)
− e
identificada, a urna é levada para um depósito − «da companhia dos pés juntos» − (um tal armazém, junto ao cais, ainda em construção, que
descrevi no inicio de cá ter chegado) − onde
existem outros esquifes, «já perfilados,
na posição horizontal,
entre tábuas», que aí aguardam, «a última guia
de marcha», o transporte para a
metrópole, nos porões húmidos e bafientos de um navio qualquer carregado com um
contingente de tropas que regressa¹.
No seguimento destes últimos
três parágrafos descritos com algum humor satírico comenta-se que, quando estes lúgubres sucedimentos
são temas de conversas de «jornal da
caserna», muitos camaradas são aqui enterrados − aos «pedaços» − e, as urnas vazias do corpo
e da alma seguem assim para a Metrópole, equilibradas com o peso das pedras.
Inúmeros casos há, em que somente parte do corpo é «despachado» sendo as partes em falta compensadas, no peso, com
sacos de areia e, ainda, com a agravante imoral do custo das transladações para
a metrópole ser suportado pelas famílias.²
A segunda tem a ver com o sonho
macabro que tive ao adormecer depois de esgotadas as histórias que, também
elas, algumas macabras, outras de humor irónico, contribuíram para me avivar
recordações da minha infância que, há muito estavam adormecidas, num qualquer
recôndito latente da minha alma.
Por ser o neto mais velho, teria
eu entre os seis e 10 anos, recordo-me de ir pela mão da minha Avó, depois do
pôr-do-sol, fazer companhia às pessoas da sua anterior geração que estavam
moribundas às portas da morte.
Recordo-me que as pessoas
morriam muito velhas. Definhando, na antecâmara da morte, numa cama ou
recostadas numa cadeira de espaldar, demoravam meses, até anos, a irem para o
outro mundo e quando, na minha inocência, perguntava:
- Ó vó, porque é que estas pessoas demoram
tanto a morrer?
Ela, muito crente e beata,
respondia-me:
- Enquanto não
expiarem todos os pecados que hão cometido na terra, as suas almas não entrarão
no reino dos céus!
Era um costume, e ainda é, as
pessoas da aldeia, depois de um dia de trabalho nas lides da lavoura,
revezarem-se no acompanhamento da pessoa moribunda. Estas, sempre vestidas de
escuro, sentavam-se numa sala, ou num quarto diminuto, e aí permaneciam,
durante algumas horas, falando das coisas boas e más, mais das boas do que das
más, da pessoa que, há muito recebera a extrema-unção, está a finar-se.
As pessoas entravam pela porta
da sala. Outras entravam pela porta da cozinha e aí se abancavam. As que
levavam crianças e no dia seguinte, ao romper da aurora, tinham de sair de casa
para ir ao jornal, sendo o caso da minha Avó, − que ainda o sol mal raiava
já ela ia, caminhos acima em direção ao monte, roçar mato, aproveitando a
frescura da manhã − despediam-se da família e do moribundo, vinham-se embora.
O prolongamento da vida do
agonizante, por muito tempo, desfalcava a despensa da família, mesmo que fossem
lavradores abastados; pois que, os revezadores,
mesmo não sendo convidados, compareciam sempre para ganharem a ceia.
Na casa dos jornaleiros não se revezavam. Nem pr’ós caldos de galinha
do moribundo, quanto mais…! − Os pobres estavam sempre à espera que morresse um rico para ganharem a
esmola de pão.
Retenho na memória longínqua um
titular da casa vir à sala anunciar que a pessoa moribunda acabara de falecer e
a sua alma já ia a caminho do céu.
No meio das ladainhas e dos choros das
carpideiras, que estavam sempre presentes, as tais que entravam pela porta da
cozinha, do zunzum e dos cochichos da sala, ouviam-se, entre outros, os
seguintes desabafos:
- Pois! Eu pensei
logo que desta noite não passavas!
Cochichava outra:
- Há muito tempo
que estava mais pra lá do que pra cá
e as noras já andavam desnorteadas! Nem pra ele, nem pra elas, coitadas! Foi
melhor assim! Deus tenha piedade e a sua alma em paz!
Junto ao ouvido da minha Avó,
ouço um cochicho muito abafado:
- Eu vi logo! As ‘almofadeiras’ entraram muito
sorrateiramente e apressadas p’rá cozinha, juntamente com as carpideiras…!
Benzeduras e abrenúncios:
- Credo, Jesus, Maria!
Não obstante, a minha insistente
curiosidade de garoto, não cheguei, à época, a compreender o significado das
palavras carpideiras e ‘almofadeiras’. Embora
as primeiras estivessem bem à vista, as outras saíam como entravam; escondidas
na escuridão da noite, envoltas em seus xailes negros, de cabeça baixa metida
entre os ombros. Somente muito mais tarde, nos ditos daqui e dacolá, vim a
descortinar destes, e doutros, lúgubres actos com os velhos agarrados à vida na
sua fase final na tentativa de enganar a morte.
¹ [Era sabido que o regime escondia os mortos, principalmente os mortos em combate.]
2 [A partir de Março deste ano,
depois de muitos bramidos silenciosos e com a achega do MNF, o regime determina
que os corpos tombados em combate, e em outras causas de morte, serão
transladados para as suas terras a expensas do governo. Só que, dizia-se, na
altura, à «boca-cheia», as famílias dos oficiais é que beneficiavam deste
direito. As famílias endinheiradas dos soldados continuavam a suportar à sua
custa o retorno dos seus entes caídos. Os outros ficavam lá no silêncio dos
esquecidos.]
Sem comentários:
Enviar um comentário