1967
05 de Agosto
Sábado,15h00
Sábado,
Hoje, depois do almoço, na hora do repouso, não sei que
ares me deu. Comecei a reler a biografia de Rembrandt, depois fechei o livro
para acender um cigarro e não me apeteceu mais continuar a ler.
O fumo do cigarro, descrevendo pequenos círculos, esvaía-se
em manchas cinzentas, entre o ar também acinzentado, dentro da caserna,
enquanto o meu cérebro se deixava invadir por longínquos pensamentos. Tentava
recordar-me de tudo ao mesmo tempo e nada me ocorria. Lembrei-me então da minha
Mãe, da minha pobre e santa Mãe, cujo retrato comecei a fazer copiado de uma
sua fotografia que me enviou, juntamente com a minha roupa civil, por um
camarada de regresso das férias.
Como é carregada e triste a expressão d0 seu
rosto, de olhar longínquo aveludado e terno! Poucas vezes a vi com ar
sorridente e alegre. É por natureza um ente de semblante carregado e triste.
Passou muitas agruras da vida. Pensa nos filhos e vive só para eles. Se os
filhos não são felizes, ela é mais infeliz ainda.
O meu Pai, com a sua postura incongruente de ser e de
estar, inferniza a sua vida e a dos filhos ao ponto de os pôr fora da casa, um
a um, por sua vez, embora que temporariamente.
A nossa Mãe, na sua complacência passiva, sofre, sofre,
porque os filhos, embora já homens, são dela. «Foi ela que os pariu». «Foi ela
que, tantas vezes comeu o pão que o diabo amassou, para os criar». Quando
sofre, muitas vezes, murmura num tom de desespero estas duas frases.
Quase sempre, eu
sou um inconformado, um insatisfeito inconsolável, taciturno, com ar de
macambúzio, muitas vezes insensato e até cruel nas palavras. É meu feitio. É a
irreverência da idade. E ela, tudo sofre em silêncio, tentando adivinhar o que
me vai na alma. Os meus irmãos, não são tanto assim, são de espírito mais
aberto, mais resignados ao meio e ao ambiente que os rodeia.
Pobre Mãe. Muito tem sofrido por amor aos filhos. Deixou
tudo. A sua vida organizada na lavoura, na labuta do amanho das terras, para
estar junto deles.
Porque eles vieram para a cidade em busca de melhor futuro.
E como é que eles lhe retribuem esse amor. Com desgostos e mais desgostos,
causados pelas incongruentes circunstâncias da vida.
Lembro-me dela, à hora do jantar, com o prato ou a tigela na mão, a comer de pé, encostada ao fogão, porque a cozinha é um nicho e à mesa não havia mais um lugar. Aliás, não havia mais dois lugares. A minha Avó também comia a um canto, sentada num banco, junto ao fogão, como se ali estivesse a tomar conta, protegendo, abençoando. Só os homens – éramos quatro − se sentavam à mesa. Nos dias de festa é que nos sentávamos todos à mesa da sala que é também quarto de dormir.
Lembro-me de, quantas vezes, o meu Pai lhe atazanar a vida, a humilhar e maltratar para indiretamente atingir os filhos, principalmente a mim. Em silêncio, quanta vez chorava dentro de si, para não vermos as lágrimas marejarem pelas rugas engelhadas da sua face. Também eu agora, afetado por este forte sentimento, me comovo e choro. Ai se ela soubesse! Choraria também. E só Deus sabe se neste momento não estará ela a chorar. Quantas vezes, nos momentos dolorosos, olhava para ela e não lhe via lágrimas, mas via pela sua expressão que o seu coração chorava. Chorava e não se lhe via as lágrimas naquele rosto carcomido e enrugado em cima dum esqueleto curvado, vergado pelo tempo, pelas agruras. Ainda parece que a estou a ver, ao fim do dia, «sempre com o coração nas mãos», muito sofrido, a espreitar sofregamente por entre a vidraça da janela, afastando a cortina já gasta pelo gesto, o nosso regresso do trabalho.
Lembro-me dela, à hora do jantar, com o prato ou a tigela na mão, a comer de pé, encostada ao fogão, porque a cozinha é um nicho e à mesa não havia mais um lugar. Aliás, não havia mais dois lugares. A minha Avó também comia a um canto, sentada num banco, junto ao fogão, como se ali estivesse a tomar conta, protegendo, abençoando. Só os homens – éramos quatro − se sentavam à mesa. Nos dias de festa é que nos sentávamos todos à mesa da sala que é também quarto de dormir.
Lembro-me de, quantas vezes, o meu Pai lhe atazanar a vida, a humilhar e maltratar para indiretamente atingir os filhos, principalmente a mim. Em silêncio, quanta vez chorava dentro de si, para não vermos as lágrimas marejarem pelas rugas engelhadas da sua face. Também eu agora, afetado por este forte sentimento, me comovo e choro. Ai se ela soubesse! Choraria também. E só Deus sabe se neste momento não estará ela a chorar. Quantas vezes, nos momentos dolorosos, olhava para ela e não lhe via lágrimas, mas via pela sua expressão que o seu coração chorava. Chorava e não se lhe via as lágrimas naquele rosto carcomido e enrugado em cima dum esqueleto curvado, vergado pelo tempo, pelas agruras. Ainda parece que a estou a ver, ao fim do dia, «sempre com o coração nas mãos», muito sofrido, a espreitar sofregamente por entre a vidraça da janela, afastando a cortina já gasta pelo gesto, o nosso regresso do trabalho.
Com a fronte
encostada à vidraça ia-nos vendo chegar um a um, de cada vez. Sentia-se a sua
alegria interior. A satisfação de nos ver em casa; de saber que o dia de
trabalho nos tinha corrido bem. Era para ela como as águas revoltas de um rio
de vida que
invadiam em pleno
as suas margens, mas, depois, lembrava-se do último a chegar que era, quase
sempre, o nosso Pai. O seu coração, em vez de alegrar-se ainda mais,
entristecia porque, quando ele voltava tocado pelo vinho, não era o seu marido
nem o nosso Pai que regressava a casa, mas sim, antes, o diabo.
afastando a cortina já gasta pelo gesto
Via-nos todos juntos e isso parecia não ser do seu agrado. Pensava que conspirávamos. À hora de comer, «por tudo e por nada», arranjava sempre um motivo para implicar. «Por dá cá aquela palha», lembrava-se de «águas passadas …» e alterava a harmonia que existia.
23h00 do mesmo dia
Via-nos todos juntos e isso parecia não ser do seu agrado. Pensava que conspirávamos. À hora de comer, «por tudo e por nada», arranjava sempre um motivo para implicar. «Por dá cá aquela palha», lembrava-se de «águas passadas …» e alterava a harmonia que existia.
Puxava por coisas antigas, muito remotas, e o jantar era
ingerido à pressa e à toa. Não o queríamos ouvir e saíamos porta fora um a um.
Eu, normalmente, era o primeiro. Sou o mais velho. Mas, a Mãe e a nossa Avó,
ficavam. Não tinham outro remédio. A vida delas era infernizada e massacrada
até ao limite. Suportavam, caladas, no seu silêncio, no seu canto. Surdas.
Mudas. Até que o fogo do inferno se extinguisse.
Eu era sempre o último a chegar e, não raras vezes,
encontrava a porta trancada. Quando isto acontecia, ninguém conseguia dormir, à
espera que eu chegasse. Embora muito me custasse, não só eu suplicava, para
entrar, como a minha Mãe e a minha Avó. Eram cenas constrangedoras.
Uns meses antes de assentar praça, numa discussão, só
porque não partilhava o seu ponto de vista, fui posto fora de casa. Agarrei na
trouxa e, nos meus livros, fui viver para casa dos pais de um amigo, ali bem perto.
A minha Mãe soube pelos vizinhos onde me encontrava e,
então, uma manhã, quando saía para o trabalho, lá estava ela à minha espera
para me perguntar como tinha passado, a dar-me palavras de conforto e
esperança, a confortar-se ela própria, ao mesmo tempo, com a minha presença.
A partir daí, voltava todas as manhãs.
A partir daí, voltava todas as manhãs.
E quando o meu irmão do meio, também, foi forçado a
abandonar a casa, por uma discussão «sem
pés nem cabeça»! O que poderia ter acontecido! Oh, que cena mais pungente!
Nunca tinha visto a minha Mãe chorar tanto. Chorou, chorou até perder as forças
e os sentidos, tendo-a levado amparada para o leito.
Soluçava e gemia
como uma criança; como que contorcida com dores. Não sabia como confortá-la.
Sentei-me aos pés da cama e esperei que o seu pranto se esvanecesse. Não era
fácil. Ela gosta muito deste meu irmão. Era ele que, muitas vezes, a fazia rir,
quando brincava com ela, com as suas pantominices.
O meu irmão mais
novo, também já tinha passado por um drama igual. Não vale a pena descrevê-lo.
Ó meu Deus, quantos desgostos ela tem sofrido e quanto eu sofro agora ao
recordar-me de tudo isto! Apeteceu-me chorar. E chorei até se me confranger o
coração. Até me doer a alma.
_____________
¹ [Pedido de autorização]
Continuação
Não consegui
terminar o capítulo anterior, porque fiquei extremamente exausto e comovido.
Estou a acabá-lo agora e, ao relê-lo, as últimas lágrimas escapam-se dos meus
olhos, rolam pelo rosto e somem-se no lençol sobre a enxerga onde se estende o
meu corpo.
O meu Pai só é «mau»
para os de casa. Para os de fora, nem é mau,
nem é bom. É uma pessoa normal, como todas as outras, como as há; umas
boas, outras más. É um homem que, em certas alturas, não posso dizer que seja
rude ou violento. A vida no seu tempo foi-lhe muito dura e talvez se tenha
deixado moldar pela aspereza inclemente das vicissitudes adversas dessa vida.
Mas isto até poderia fazer dele um homem bom. Porque, no fundo, no fundo, tem
alturas até que o é. O seu grande defeito é o seu temperamento ríspido,
irascível, inconstante e impetuoso. Tem no seu íntimo um complexo de que todos
deveriam ser iguais a ele. As conversas à mesa, que começam amenas, acabam
quase sempre em discussão, prevalecendo sempre os seus pontos de vista. Ele é
que tem razão e o conflito familiar começava, muitas vezes, por aí. Exagera o
seu comportamento por ciúmes dos filhos. Com notado orgulho chega a afirmar, no
círculo dos seus iguais, que tem sido um carrasco para os filhos só para ver,
até onde vai, o íntimo deles.
Esta sua atitude, inconstante e incongruente, acaba sempre
por descarregar nas duas pobres vítimas que, por estarem dependentes, não têm
por onde escapar; a minha Mãe e a minha Avó, (sua Mãe). Além de que, na
relação com os filhos, como diz um antigo provérbio: «Pai impertinente torna os filhos desobedientes». Tenho de
reconhecer que de certa forma é verdade. Por vezes não sou obediente e, muitas
vezes, sendo-o sinto que não deveria sê-lo.

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