sábado, 4 de novembro de 2017

Cuidado, c’agora o amarelinho dos peidos vai passar ao ataque

 
        1967
12 de Agosto
Sábado, 21h00



 

    Estou no café Benfica com um meu amigo e camarada. Sentamo-nos a uma mesa ao lado de outra na qual estavam três camaradas conhecidos.
        É a primeira vez que venho a este café e confesso que tem um aspecto muito aprazível. Está situado praticamente no limite da cidade, a Noroeste, tem pouco mais de uma dezena de mesas, pouca malta, parece até que selecionada, muito iluminado e uma música ambiente muito convidativa.
        Ao entabularmos conversa, com os camaradas conhecidos da mesa ao lado, verificamos que esta, a avaliar pelo palavreado, já iria, provavelmente, no meio a caminhar para o fim. A deduzir pelo conteúdo das palavras, das Cucas, (cerveja fabricada em Angola), e copos vazios espalhados pela mesa, adivinha-se mesmo ser daquelas conversas, de pura linguagem de caserna, que começam por um assunto inimaginável qualquer e acabam inevitavelmente em p… e p….
        É então que, entra no café, um camarada ao qual um dos camaradas conhecidos chama de ‘sabão amarelo’, gritando:
        - Ó ‘sabão amarelo’! Vem pr’aqui sentar-te ao pé de nós e paga umas Cucas à malta que tu andas sempre cheio de ‘bagalhoça’!
        Quando se senta eu verifico que ele tem, na cara e nas mãos, a pele toda sarapintada de uma cor macilenta, esquisita.
        Um segundo camarada conhecido interpela:
        - Eh pá! Estás cada vez mais ‘amareloso’! Estás mais feio c’uma bota da tropa! Não terás pr’aí nenhuma “galiqueira” que ainda pegas essa moléstia à malta!  
        Diz o primeiro que o chamou:
       - Eh pá, não tem nada disso! Isso é castigo de Deus. Vocês querem saber porque é que o gajo está assim; é que, seis meses antes de ir à inspeção, a mulher todos os dias lhe metia um dente d’alho no cu para ver se o livrava à tropa.
        Gargalhada geral e mais umas goladas de cerveja.
        Volta o segundo camarada conhecido:
       - Ah! Por isso é que o gajo tem esta cor que mais parece um chupado das carochas! Querias enganar a tropa com a icterícia, é?
       - Esta cor ‘amarelosa’ que ele tem é mas é dos peidos! Volta a atacar o primeiro.
        As gargalhadas entoam mais alto e o empregado, um estica-larica, que é militar à civil, traz mais uma rodada de Cucas para a mesa.
        Um terceiro camarada, mal-enjorcado, que ainda não tinha aberto a bocarra, sai-se com esta: 
        - Houve gajos que enterravam carne viva no anel, pra livrarem ao abrigo do 16 ¹. “Lerparam” e vieram todos abanar o rabo prá guerra.  
         Volta a atalhar o segundo camarada:
        - Ai não, que agora a tropa «apura» tudo! Não há pé chato que se safe! Por este andar, ainda cá vamos ver cegos, coxos e aleijadinhos, a bater calcanhares!
         Ironiza imediatamente o ‘sabão amarelo’ que, vendo bem, tem mesmo um aspeto de galicado, tem estado muito caladinho:
        - Aleijadinhos da cabeça, já têm cá muitos. Olhem prás vossas cabecinhas galhadas, que lindas! Prá tua aí! Apontando para o segundo camarada. Vê como eles te cresceram. Até dá pra saltar o galho!
         E, curvando-se ligeiramente nas costas da cadeira para trás, levando a mão direita até entre pernas, apertando-a e abanando-a, prossegue:
         - Anda, salta o galho! Salta pr’aqui, salta!            
         Olhamos todos uns para os outros com ar de sérios e de repente soam mais gargalhadas que contagiam as outras mesas.
         - Cuidado, c’agora o amarelinho dos peidos vai passar ao ataque! Diz o terceiro camarada, mal-enjorcado.
        - Ao ataque, anda a tua ‘chorona’, meu c…, enquanto estás aqui a dar o coiro ao manifesto! Continua o amarelo, meio destrambelhado:
        - Este, referindo-se ao segundo, deixou a ‘dona’ entregue ao padre da terra e o sacristão é que anda a cavalgá-la!
        As agressões verbais aumentavam de tom e as gargalhadas pareciam cada vez mais secas e frias. Estava mesmo a ver que ainda afinavam e descambavam em pancadaria, não fosse ter acontecido o imprevisto e esfriado o calor das palavras.
        A Polícia Militar parou o jipe à porta, apeou-se e entrou no café, saudando e perguntando se estava tudo bem.
        A resposta foi irónica e dada em coro:
        - Estava tudo bem, até vocês aparecerem!
        Retorquindo ainda um, isoladamente:
       - Podem bater calcanhares, dar meia volta e fazerem-se à vida, c’aqui não há mais Cucas pra ninguém!
        E, de olhar fulminante, com cara de quem tem poucos amigos, desandaram e foram à vida, ao mesmo tempo que os camaradas ao lado deste lhe apertavam cada um o seu braço, como que a reprimir-lhe as palavras.
        Bem camaradas, disse um deles:    
        - A hora já vai avançada, o palratório também e já está a seguir para o final do costume. Vamos lá fazer contas à moda do Porto, pra pagar o estrago, e vamos todos prá rua apanhar ar fresco.
        Diz um outro:
       - Vamos, vamos pá, que já sinto a cabeça pesada de tanta Cuca!
        Ataca logo, outro:
       - Sentes, sentes, mas é o peso dos c…!

 
_______________
¹ [Artº. 16 do RDM, (Regulamento de Disciplina Militar). Por nunca ter lido o RDM, nunca soube, ao certo, o conteúdo deste artº. e julgo que os que a ele se referiam também não, mas, a avaliar pelas “bocas sujas” dos comentários, teria a ver com os homossexuais. Estes, “os abichanados”, não eram bem aceites pela comandita da tropa, porque esta era só para homens.]





Horas mais tarde. Duas da manhã de Domingo.


Estou de tal maneira desperto que, se fosse deitar-me agora, não conseguiria adormecer.
Aproveito a espertina e a luz do alpendre da caserna para, aqui sentado a uma mesa, (da batota), no silêncio da noite, reescrever e acabar de escrever o que tinha em mente quando comecei este capítulo.   
Devo aqui referir que foi possível descrever o episódio que acabei de narrar, num ambiente não muito próprio para escrever num diário, porque, eu e o camarada que me acompanhava, não interviemos na contenda palavrosa entre estes quatro camaradas que, vim a saber depois, além de muito amigos, eram patrícios e, era sempre assim, quando se juntavam, após algum tempo de desencontros.      
Apesar da conversa desbocada dos camaradas conhecidos, o ambiente ainda era de acalmia e comecei a escrever neste diário não imaginando sequer que, a partir do segundo parágrafo, tivesse de juntar à minha narrativa, o desenrolar de tal palanfrório que, com as gargalhadas estapafúrdicas, muito contribuiu, com toda a certeza, para desopilar o fígado de cada um.
Devo referir ainda que estes cafés e esplanadas por mais alindados que estejam, lhes falta sempre uma presença voluptuosa, para tornar o ambiente mais doce e atrativo. Estes ‘poisos’ são frequentados, geralmente, por militares sem, ou «nenhuma», patente, raramente se vendo uma alma feminina.   
São ainda, acima de tudo, assíduo ponto de encontro de militares espalhados pelos quartéis no ‘mato’ que, depois de um período de ausência, regressam à cidade, por variados motivos, se encontram e se juntam para afiar a (má-) língua e trocar as notícias do «jornal da caserna», das investidas contra os “turras” e destes contra os “tugas”, (“Portugas”); os atos heroicos dos que “lerpam” e dos que vivem. Espalham os medos, as mágoas, os anseios e as angústias, comemorando a vida.
        
 Hoje, (aliás, ontem), cheguei um pouco mais tarde à secção e o chefe começou logo ‘a mandar vir comigo’.
  O carro que me transporta teve de sair mais cedo, cerca de meia hora, e eu, neste entremeio, não tive tempo de me arranjar: cortar a barba; fazer a cama, porque aos sábados é dia de revista; ir buscar a roupa lavada e levar a suja à lavadeira, etc., etc.
  Ele não gostou que chegasse tarde e eu também não gostei muito que me ‘cascasse’, daquela maneira, à frente de todos. Ao fim ao cabo, pouco ou nada tem em consideração ao trabalho que tenho feito na secção. Mais do que qualquer outro camarada da minha classe. Para além do meu trabalho de escriturário e, para além, dos trabalhos de encadernação dos cadernos antigos de recrutamento, como tenho evidenciado jeito para o desenho, também, agora, ultimamente, tenho desenhado alguns mapas de calendarização de determinadas tarefas.
  É bem verdade, o ditado que se diz na tropa: «A recompensa pelo trabalho é mais trabalho ainda».
   A minha opinião a respeito dele mudou radicalmente e da sua parte já não espero nenhuma recompensa, a não ser aquela que acabei de referir no parágrafo anterior. Mas também pode esperar pela encadernação de vários cadernos que, há algum tempo, me pediu para encadernar. Não tenho nenhum estímulo para o fazer. É trabalho que não me compete. É que me irrita a sua mesquinhez. Mas devo ter cuidado. Não me posso esquecer que estou na tropa e o ‘mato’ não fica muito distante!

  Já fiz o retrato da minha Mãe. Ficou bom mas não tão bom como desejava. Gostaria de lhe abrir mais um pouco o sorriso. Podia-o ter feito, mas tive receio de exagerar e de falsear o seu estado de alma.
  Já comprei, também, a moldura para o encaixilhar que custou 200 escudos. É muito bonita. É em latão com um trabalhado que parece filigrana. Não tinha o dinheiro e pedi-o emprestado a um camarada colega de trabalho e amigo.

  São três horas da madrugada de Domingo. O silêncio só não é total porque é audível a zoada dos insetos a rodopiarem à volta das lâmpadas e o roncar de alguns camaradas, alternado com os gritos de outros a sonharem alto, provavelmente, com pesadelos.
  A noite está amena embora escura, não se vendo estrelas no firmamento.
  Para esticar as pernas, saí debaixo do alpendre, caminhei até ao terreiro em frente e, escutando mais atentamente, ouve-se, precedido de ténues clarões, lá longe, a Nordeste, provavelmente na zona de Mansoa, um surdo ribombar, que não sendo trovoadas serão, certamente, os canhões, sem descanso, a descarregar metralha.

 
   Felizmente, ao Domingo não há formatura para o café.

      

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