1967
19 de Agosto
Sábado, 21h00
Estou, novamente,
no café Benfica. Desta vez com dois
camaradas amigos e começo por reafirmar o que escrevi no primeiro parágrafo do
capítulo anterior:
Este café,
comparado com os outros, tem de facto um ambiente bastante mais acolhedor. Tem
pouca malta; desta vez pouco iluminado, com luz indireta nas paredes e uma
agradável música de fundo que convida ao silêncio, ouve-se, serenamente, neste momento, a voz doce e
romântica de Gigliola Cinquetti em «Non
ho l’età» precedida de «Dio come ti
amo» faltando-lhe apenas, como referi, o adorno feminino de cabeleiras
oxigenadas e rostos platinados para adocicar a atmosfera; a moldura ficaria
mais composta e completa, dando-nos a impressão de estarmos num ambiente
metropolitano, ainda que, também por aí, a fartura não abunde, a menos que
acompanhadas de familiares; se donzelas, ou falsas virgens, quase sempre a
matrona.
A seguir ao tema dos incidentes no ‘mato’, as mulheres são sempre o tema primordial das nossas
conversas e uma obsessão nas nossas mentes.
É só vermos um rabo de saia a abanar, nas esplanadas ou nos passeios, e
logo começamos a dar trabalho à imaginação.
La
femme, de exubérants glamours, ce spécimen de parfums enivrants, é
coisa rara nestes lugares frequentados por fardas de perna peluda ao léu e a
tresandar a transpiração. As “tugas”
brancas, (como lhes chamam os negros), ou são esposas do oficialato ou dos
comerciantes da cidade, são aconselhadas ao recato pelas esferas superiores,
impondo a sua presença por outras paradas, como por exemplo: o Grande Hotel; a Associação Comercial; o Clube
de Oficiais; os jantares convívio nas
messes; na casa deste e daquele; etc.,
etc., lugares, estes, de acesso proibitivo à plebe, a menos que seja para
os servir.
Algumas, bem que gostariam de se menearem por estes ‘poisos’. Mas, há a imposição do decoro.
Não fica bem. Há que manter as distâncias e salvar as aparências − «à mulher de César
não lhe basta ser séria, à que parecê-lo». O soldado é um ente carecido, ‘esfomeado’, começa logo a ‘galar’ e a ‘comer’ com os olhos. A carência aguça-lhe o apetite e a
imaginação, acabando quase sempre, anichado no escuro, a ‘bater o sarrafo’ à custa do panorama. Também aqui, a filha está
muito bem guardada. Ai se está!
Na semana passada, recebi um aerograma do filho da minha
madrinha a falar-me dela. Fiquei tão entristecido, pela maneira como ele a
considerou, que não lhe respondi.
Recebi, de uma correspondente espanhola, um conjunto de
postais e alguns nomes e moradas de amigas suas, para participar num jogo
escrevendo para uma delas.
Escolhi o nome de Guadalupe para mim, por ser o nome da
Santa de uma capela da terra onde nasci, (Nossa Senhora da Guadalupe), e distribui os
outros nomes pelos meus camaradas.
Na Segunda-Feira passada, fui chamad0 à secção de justiça,
para prestar declarações sobre um «auto»
de roubo e desvio de víveres no navio NIASSA pelos descarregadores nativos.
Esta situação já foi referida, num capítulo anterior, quando estive de guarda
ao navio.
Ontem fui ao médico por causa da mesma dor que tenho no peito. Ando bastante preocupado com ela e não sei de qualquer resultado. O médico receitou-me injeções e comprimidos. Tenho uma tosse um tanto esquisita e só ficaria mais descansado se o médico me mandasse fazer uma radiografia.
Estou cheio de fome e infelizmente estou “teso”. Nesta vida, este é o meu normal
estado pecuniário: “teso como um carapau”!
O comer do rancho tem sido uma desgraça. É pouco e não
presta. As “bocas” não param de comentar: «o sargento
rancheiro ainda está a pagar o apartament0».
Desta vez resolvi, definitivamente, desarranchar-me do
rancho geral.
Estou aqui e estou a lembrar-me que bem me saberia agora
uma “sanducha” de cachucho de outrora.
Estava no RI15, (Regimento de Infantaria, nº. 15), em
Tomar, quando, à Sexta-feira, fui passar o fim-de-semana a casa e resolvi não
esperar pelo jantar para vir prá estrada, mais cedo, apanhar boleia.
Passou-se a hora do jantar e, quase a de cear, eu a vê-los
passar e nada de boleia. Começava já a desesperar, com uma ‘fome de matar’, até que o anjo da guarda envia a minha salvação.
Depois de terem atravessado a estrada, cruzam-se comigo
quatro viçosas moçoilas, bem constituídas de atributos, que vinham do trabalho,
de uma fábrica nas redondezas, com as suas lancheiras, de regresso a casa e,
como estavam em vantagem, começaram logo, muito galhofeiras, a meter-se com o magala.
Deixei de esticar o braço, com o polegar apontado no
sentido da estrada, metendo-me ao paleio com a habitual conversa de chacha.
Com ares de brejeirice, lá começou a história do ‘coitadinho’; ah, coitado do magala,
está na tropa, tem d’ir prá guerra, pr’aqui e pr’acolá, mais isto e mais aquilo
e eu com a minha retórica da “canção do
bandido”, pa-ta-ti, pa-ta-tá; blá, blá, blá e a ‘barriguinha a dar horas’!
Era finais do mês de Outubro, os dias eram mais pequenos,
começara a esfriar e a fazer-se noite. Todas tinham namorado ou já eram madrinhas de guerra e, iam apressadas
embora, porque estava a fazer-se tarde. Passada a hora habitual da chegada a
casa, as Mães viriam no seu encalço.
Já iam, por um carreiro; uma à frente; outra atrás; duas de
entremeio, a alguma distância, quase
a sumirem-se na vereda, quando num impulso espontâneo, perdendo a vergonha e a
timidez, grito:
- Hei, “flausinas” lindas como os amores, por
acaso, não levam nas lancheiras qualquer coisa que tenha sobrado do vosso
almoço e se possa comer?
Olham para trás e
umas prás outras; comentam entre si e dirigem-se duas, com as suas lancheiras,
até a mim: tirando uma do interior da cesta metade de um pão de 17, (conhecido
por pão escuro que custa 17 tostões, (1$70)¹, equivalente ao
casqueiro das padarias da Manutenção Militar), e a outra; um grande cachucho
frito.
Elas próprias, com um canivete, abrem a metade do pão ao
meio e, sem peneiras, metem lá dentro o cachucho inteiro, apertam as duas
metades e, muito prazenteiras, oferecem-me a sanduíche mais rica do mundo que
agarro com as duas mãos dando de seguida as primeiras dentadas, ao mesmo tempo
que, em coro, exclamam as duas:
- Ai que fome!
- Pergunto, agora, a mim mesmo, se o cachucho, por ventura,
tem espinhas?
A odisseia não acabou aqui. Já que comecei vou acabar.
Consegui, depois, uma boleia que me largou no Cartaxo, já
altas horas da noite. A noite estava fria e a esta hora, − pouco faltava para a meia-noite
− não havia nenhum transporte que me pudesse levar para
Lisboa. O movimento que havia era apenas local. O camionista, que me trouxera
até ali, tinha-me avisado logo que, devido ao adiantado da hora, iria ser
difícil pôr-me novamente à estrada.
Sem um vintém na algibeira, sem ter que comer, sem ter onde
dormir, uma noite fria de rachar, desesperei e comecei a dizer mal da minha
sorte. Não era a primeira vez que saía mais cedo, para me pôr à boleia, e isto
nunca me tinha acontecido antes.
Caminhei desnorteado durante algum tempo, a ver aonde
poderia passar ‘pelas brasas’ nas
poucas horas que faltavam para amanhecer. Avistei um largo com algumas
camionetas de carreira e experimentei, em quase todas, se alguma porta não
estaria trancada. Tive sorte. Consegui abrir a porta da retaguarda de uma delas.
Entrei e estiquei-me ao comprido no banco corrido da retaguarda. Mas, depressa
me encolhi e contorci, a bater o dente e a tiritar de tanto frio, não obstante
ter-me enrodilhado na roupa que levava, no saco, para lavar e em folhas de
jornais que ali ficaram esquecidos.
Acordei aos solavancos da camioneta. Esta já ia estrada
fora. Felizmente, puro acaso, a caminho de Lisboa.
Ainda estou a ver, o espanto do chauffeur e do seu
ajudante, pasmados de boca aberta, e eu, meio ensonado, enregelado até aos
ossos, sem conseguir articular a voz e esticar as pernas de tão tolhidas que
estavam.
¹ [Para aqueles que não sabem ou já se esqueceram 1$70, (1 escudo e 70 centavos), representaria hoje, cerca de 50 anos depois, menos de 1 cêntimo.
O pré, (salário
mensal), de um soldado em comissão de serviço na Guiné era, à data, dependendo
da sua especialidade, de 508 escudos, equivalente, hoje, a 2,54 €.
Um maço de tabaco, «Português
Suave», custava nas cantinas da Manutenção Militar 2$50,
(dois escudos e 50 centavos), 25 tostões, ou as vulgares 5 coroas − (uma coroa = 5 tostões) − ou, ainda, 2 e
quinhentos; abreviação de 2 mil e 500 (reis). Tudo
isto valeria agora pouco mais de 1 cêntimo que frequentemente se encontram
espalhados pelo chão e que ninguém se dá ao incómodo de vergar a espinha, não
vá dar-se um jeito na mesma, para os apanhar.]
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