segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Também aqui, a filha está muito bem guardada. Ai se está!

   
        1967
19 de Agosto
Sábado, 21h00
 
    Estou, novamente, no café Benfica. Desta vez com dois camaradas amigos e começo por reafirmar o que escrevi no primeiro parágrafo do capítulo anterior:
        Este café, comparado com os outros, tem de facto um ambiente bastante mais acolhedor. Tem pouca malta; desta vez pouco iluminado, com luz indireta nas paredes e uma agradável música de fundo que convida ao silêncio, ouve-se, serenamente, neste momento, a voz doce e romântica de Gigliola Cinquetti em «Non ho l’età» precedida de «Dio come ti amo» faltando-lhe apenas, como referi, o adorno feminino de cabeleiras oxigenadas e rostos platinados para adocicar a atmosfera; a moldura ficaria mais composta e completa, dando-nos a impressão de estarmos num ambiente metropolitano, ainda que, também por aí, a fartura não abunde, a menos que acompanhadas de familiares; se donzelas, ou falsas virgens, quase sempre a matrona.   
        A seguir ao tema dos incidentes no ‘mato’, as mulheres são sempre o tema primordial das nossas conversas e uma obsessão nas nossas mentes. É só vermos um rabo de saia a abanar, nas esplanadas ou nos passeios, e logo começamos a dar trabalho à imaginação.
        La femme, de exubérants glamours, ce spécimen de parfums enivrants,  é coisa rara nestes lugares frequentados por fardas de perna peluda ao léu e a tresandar a transpiração. As “tugas” brancas, (como lhes chamam os negros), ou são esposas do oficialato ou dos comerciantes da cidade, são aconselhadas ao recato pelas esferas superiores, impondo a sua presença por outras paradas, como por exemplo: o Grande Hotel; a Associação Comercial; o Clube de Oficiais; os jantares convívio nas messes; na casa deste e daquele; etc., etc., lugares, estes, de acesso proibitivo à plebe, a menos que seja para os servir.
        Algumas, bem que gostariam de se menearem por estes ‘poisos’. Mas, há a imposição do decoro. Não fica bem. Há que manter as distâncias e salvar as aparências − «à mulher de César não lhe basta ser séria, à que parecê-lo». O soldado é um ente carecido, ‘esfomeado’, começa logo a ‘galar’ e a ‘comer’ com os olhos. A carência aguça-lhe o apetite e a imaginação, acabando quase sempre, anichado no escuro, a ‘bater o sarrafo’ à custa do panorama. Também aqui, a filha está muito bem guardada. Ai se está!  
        Esta semana “lerpei” com a correspondência da minha namorada. Foi passear a Lisboa. Soube-o pela minha Mãe, porque ela foi lá a casa.
        Na semana passada, recebi um aerograma do filho da minha madrinha a falar-me dela. Fiquei tão entristecido, pela maneira como ele a considerou, que não lhe respondi.
        Recebi, de uma correspondente espanhola, um conjunto de postais e alguns nomes e moradas de amigas suas, para participar num jogo escrevendo para uma delas.
        Escolhi o nome de Guadalupe para mim, por ser o nome da Santa de uma capela da terra onde nasci, (Nossa Senhora da Guadalupe), e distribui os outros nomes pelos meus camaradas.
Na Segunda-Feira passada, fui chamad0 à secção de justiça, para prestar declarações sobre um «auto» de roubo e desvio de víveres no navio NIASSA pelos descarregadores nativos. Esta situação já foi referida, num capítulo anterior, quando estive de guarda ao navio.            
 
 Ontem fui ao médico por causa da mesma dor que tenho no peito. Ando bastante preocupado com ela e não sei de qualquer resultado. O médico receitou-me injeções e comprimidos. Tenho uma tosse um tanto esquisita e só ficaria mais descansado se o médico me mandasse fazer uma radiografia.
        
        Estou cheio de fome e infelizmente estou “teso”. Nesta vida, este é o meu normal estado pecuniário: “teso como um carapau”!
        O comer do rancho tem sido uma desgraça. É pouco e não presta. As “bocas” não param de comentar: «o sargento rancheiro ainda está a pagar o apartament0».
        Desta vez resolvi, definitivamente, desarranchar-me do rancho geral. 
        Estou aqui e estou a lembrar-me que bem me saberia agora uma “sanducha” de cachucho de outrora.
        Estava no RI15, (Regimento de Infantaria, nº. 15), em Tomar, quando, à Sexta-feira, fui passar o fim-de-semana a casa e resolvi não esperar pelo jantar para vir prá estrada, mais cedo, apanhar boleia.
        Passou-se a hora do jantar e, quase a de cear, eu a vê-los passar e nada de boleia. Começava já a desesperar, com uma ‘fome de matar’, até que o anjo da guarda envia a minha salvação.
        Depois de terem atravessado a estrada, cruzam-se comigo quatro viçosas moçoilas, bem constituídas de atributos, que vinham do trabalho, de uma fábrica nas redondezas, com as suas lancheiras, de regresso a casa e, como estavam em vantagem, começaram logo, muito galhofeiras, a meter-se com o magala.  
        Deixei de esticar o braço, com o polegar apontado no sentido da estrada, metendo-me ao paleio com a habitual conversa de chacha.
        Com ares de brejeirice, lá começou a história do ‘coitadinho’; ah, coitado do magala, está na tropa, tem d’ir prá guerra, pr’aqui e pr’acolá, mais isto e mais aquilo e eu com a minha retórica da “canção do bandido”, pa-ta-ti, pa-ta-tá; blá, blá, blá e a ‘barriguinha a dar horas’! 
        Era finais do mês de Outubro, os dias eram mais pequenos, começara a esfriar e a fazer-se noite. Todas tinham namorado ou já eram madrinhas de guerra e, iam apressadas embora, porque estava a fazer-se tarde. Passada a hora habitual da chegada a casa, as Mães viriam no seu encalço. 
        Já iam, por um carreiro; uma à frente; outra atrás; duas de entremeio, a alguma distância, quase a sumirem-se na vereda, quando num impulso espontâneo, perdendo a vergonha e a timidez, grito:
         - Hei, “flausinas” lindas como os amores, por acaso, não levam nas lancheiras qualquer coisa que tenha sobrado do vosso almoço e se possa comer?     
         Olham para trás e umas prás outras; comentam entre si e dirigem-se duas, com as suas lancheiras, até a mim: tirando uma do interior da cesta metade de um pão de 17, (conhecido por pão escuro que custa 17 tostões, (1$70)¹, equivalente ao casqueiro das padarias da Manutenção Militar), e a outra; um grande cachucho frito.
        Elas próprias, com um canivete, abrem a metade do pão ao meio e, sem peneiras, metem lá dentro o cachucho inteiro, apertam as duas metades e, muito prazenteiras, oferecem-me a sanduíche mais rica do mundo que agarro com as duas mãos dando de seguida as primeiras dentadas, ao mesmo tempo que, em coro, exclamam as duas: 
        - Ai que fome!
        - Pergunto, agora, a mim mesmo, se o cachucho, por ventura, tem espinhas?
        A odisseia não acabou aqui. Já que comecei vou acabar.
        Consegui, depois, uma boleia que me largou no Cartaxo, já altas horas da noite. A noite estava fria e a esta hora, − pouco faltava para a meia-noite − não havia nenhum transporte que me pudesse levar para Lisboa. O movimento que havia era apenas local. O camionista, que me trouxera até ali, tinha-me avisado logo que, devido ao adiantado da hora, iria ser difícil pôr-me novamente à estrada.
        Sem um vintém na algibeira, sem ter que comer, sem ter onde dormir, uma noite fria de rachar, desesperei e comecei a dizer mal da minha sorte. Não era a primeira vez que saía mais cedo, para me pôr à boleia, e isto nunca me tinha acontecido antes.
        Caminhei desnorteado durante algum tempo, a ver aonde poderia passar ‘pelas brasas’ nas poucas horas que faltavam para amanhecer. Avistei um largo com algumas camionetas de carreira e experimentei, em quase todas, se alguma porta não estaria trancada. Tive sorte. Consegui abrir a porta da retaguarda de uma delas. Entrei e estiquei-me ao comprido no banco corrido da retaguarda. Mas, depressa me encolhi e contorci, a bater o dente e a tiritar de tanto frio, não obstante ter-me enrodilhado na roupa que levava, no saco, para lavar e em folhas de jornais que ali ficaram esquecidos.
        Acordei aos solavancos da camioneta. Esta já ia estrada fora. Felizmente, puro acaso, a caminho de Lisboa.
        Ainda estou a ver, o espanto do chauffeur e do seu ajudante, pasmados de boca aberta, e eu, meio ensonado, enregelado até aos ossos, sem conseguir articular a voz e esticar as pernas de tão tolhidas que estavam.
 
_________________
¹ [Para aqueles que não sabem ou já se esqueceram 1$70, (1 escudo e 70 centavos), representaria hoje, cerca de 50 anos depois, menos de 1 cêntimo.
        O pré, (salário mensal), de um soldado em comissão de serviço na Guiné era, à data, dependendo da sua especialidade, de 508 escudos, equivalente, hoje, a 2,54 €.
        Um maço de tabaco, «Português Suave», custava nas cantinas da Manutenção Militar 2$50, (dois escudos e 50 centavos), 25 tostões, ou as vulgares 5 coroas − (uma coroa = 5 tostões) − ou, ainda, 2 e quinhentos; abreviação de 2 mil e 500 (reis). Tudo isto valeria agora pouco mais de 1 cêntimo que frequentemente se encontram espalhados pelo chão e que ninguém se dá ao incómodo de vergar a espinha, não vá dar-se um jeito na mesma, para os apanhar.]  
 

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