quarta-feira, 8 de novembro de 2017

«Um Por Todos e Todos Por Um»

        
        1967
25 de Agosto
Sexta-feira, 21h00        


    Estou no café Avenida com dois camaradas e amigos. Ouve-se, no meio desta vozearia, a voz sensual da Madalena Iglésias, transmitida por dois altifalantes pendurados na parede virada à esplanada, a cantar «Ele e Ela»: − «Sei quem ele é/Ele é bom rapaz/Um pouco tímido até/Vivia n0 sonho de encontrar o amor...».
 Completo hoje 24 anos de idade e mais uma vez, para variar, estou “teso”. Ou melhor, (pior), continuo “teso” que é mais correto.
Não recebi o dinheiro que esperava receber de alguns trabalhos que fiz e mesmo que recebesse pagava a quem devia e o ciclo continuava; sempre “teso”.
        O que me vale, ainda, são os meus amigos. São poucos mas são bons amigos. Quando algum deles está à rasca eu, se posso, também lhes valho. Somos assim. Um pouco como a divisa d’Os Três Mosqueteiros: «Um Por Todos e Todos Por Um». Ainda bem que há esta camaradagem. Senão, seria muito difícil, aguentar estes 24 meses, nesta guerra do sem fim à vista. 
         Vamos ao cinema. Um dos meus amigos vai emprestar-me dinheiro para eu pagar, ao menos, as três bicas e comprar o meu bilhete.
        Poderá hoje fazer três anos, não preciso bem, talvez a esta mesma hora, eu escrevia num diário como este; com outras palavras, com outro sentimento, e um apático estado de alma, mergulhado num horizonte limitado por cercanias e por aí… Estava nessa altura em Elvas a fazer a recruta no BC8, (Batalhão de Caçadores, nº. 8).  
        Três anos passados, eis-me aqui, noutros horizontes, não menos limitado, a escrever com palavras diferentes outros sentimentos com mesmo estado de alma…     
        - Que fiz eu, em todo este tempo? 
        - Que utilidade eu tive?     
        - Nenhuma!
        Sou apenas um número. Um número mecanográfico, entre tantos outros números mecanográficos, atirado à sorte.
        Que  tempo mais desperdiçado!
        Recebi correspondência da minha namorada com um postal a dar-me os parabéns pelo  meu aniversário. Recebi, ainda, correspondência de duas raparigas e, uma delas, nem sequer conheço. 

 

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