1967
25 de Agosto
Sexta-feira, 21h00
Estou no café Avenida com dois camaradas e
amigos. Ouve-se, no meio desta vozearia, a voz sensual da Madalena Iglésias, transmitida por dois altifalantes pendurados na
parede virada à esplanada, a cantar «Ele e Ela»: − «Sei quem ele é/Ele é bom rapaz/Um pouco tímido
até/Vivia n0 sonho de encontrar o amor...».
Completo hoje 24
anos de idade e mais uma vez, para variar, estou “teso”. Ou melhor, (pior), continuo
“teso” que é mais correto.
Não recebi o dinheiro que esperava receber de alguns
trabalhos que fiz e mesmo que recebesse pagava a quem devia e o ciclo
continuava; sempre “teso”.
O que me vale, ainda, são os meus amigos. São poucos mas
são bons amigos. Quando algum deles está à
rasca eu, se posso, também lhes valho. Somos assim. Um pouco como a divisa
d’Os Três Mosqueteiros: «Um Por Todos e Todos Por Um». Ainda bem que há
esta camaradagem. Senão, seria muito difícil, aguentar estes 24 meses, nesta
guerra do sem fim à vista.
Vamos ao cinema. Um dos meus amigos vai emprestar-me
dinheiro para eu pagar, ao menos, as três bicas e comprar o meu bilhete.
Poderá hoje fazer três anos, não preciso bem, talvez a esta
mesma hora, eu escrevia num diário como este; com outras
palavras, com outro sentimento, e um apático estado de alma, mergulhado num
horizonte limitado por cercanias e por aí… Estava nessa altura em Elvas a fazer
a recruta no BC8, (Batalhão de Caçadores, nº. 8).
Três anos passados, eis-me aqui, noutros horizontes, não
menos limitado, a escrever com palavras diferentes outros sentimentos com mesmo
estado de alma…
- Que fiz eu, em todo este tempo?
- Que utilidade eu tive?
- Nenhuma!
Sou apenas um número. Um número mecanográfico, entre tantos
outros números mecanográficos, atirado à sorte.
Que tempo mais desperdiçado!
Recebi correspondência da minha namorada com um postal a
dar-me os parabéns pelo meu aniversário. Recebi, ainda, correspondência de duas
raparigas e, uma delas, nem sequer conheço.
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