1967
11 de Setembro.
Segunda-feira, 22h00.
Hoje de madrugada,
quando me levantei para ir urinar, fui atacado de uma fortíssima febre.
Transpirava e tremia terrivelmente que mal me segurava em pé. Às seis horas da
manhã, já estava melhor. Segundo me disseram, esta febre, foi o princípio de paludismo.
Agora, desarranchei-me do rancho geral. Como à sociedade
com o camarada e amigo Torres. Agora, a corneta já não toca para nós. Já não
temos a preocupação das formaturas para o rancho.
Encomendamos a vianda
na pensão Central e comemos na secção onde trabalhamos. Só vamos para o
quartel, à noite, para dormir.
O comer, “bianda”, como
os nativos lhe chamam, é fornecido em marmitas de alumínio que nós compramos para o
acondicionar no transporte até à secção. Pagamos, mensalmente, ‘600 pesos’, (600 escudos), cada um. Inclui o
almoço e o jantar com prato de peixe, prato de carne e sopa. O pequeno-almoço,
o pão e o vinho, é à nossa conta.
O dinheiro que recebo de volta por me ter desarranchado chega para isto e ainda sobra algum;
pouco ou quase nada. Isto, também, porque vou comprar as coisas mais baratas à
cantina da Manutenção Militar.
À hora do almoço e do jantar, à volta das casas que servem
comida para fora, veem-se grandes
filas de pretinhos e pretinhas com as marmitas da “bianda” à espera de vez para as encher.
Fazem uma algazarra tremenda, quando os mais atrasados não
respeitam a ordem da fila metendo-se à frente para não chegarem atrasados com a
“bianda” aos seus senhores.
Depois, da “bianda
aviada”, é vê-los a correr num lufa-lufa por todos os cantos da cidade,
descalços, com as marmitas à cabeça, um braço a segurar, outro, pendurado, a
dar-a-dar, para chegarem depressa e saciarem a gula dos seus ‘amos’ e, com o que sobra, a sua.
É um hábito, 0 nativo carregar qualquer coisa, mesmo
pequena que seja, à cabeça. Veem-se, pelas ruas da cidade e nos cafés, muitos
miúdos, andrajosos, quase despidos e descalços, levarem à cabeça uma pequena
bacia de esmalte ou alumínio contendo mancarra, (amendoim torrado), e apregoarem:
- Branco, dá “patacão”! Compra “mancara a minino”!
Alguns, já mais crescidos, quando lhe perguntámos se andam
na escola, respondem:
- “Minino cá ten escola”! “Mi cá ten o esperto nos
cabeça”!
Agora tenho mais tempo para os meus desenhos. Ando,
presentemente, a dedicar-me ao desenho de construção civil. Faço cópias e
recebo explicações de um desenhador de construção civil que conheci na cidade
através do sargento Laurentino que presta serviço na secção e é natural de
Bissau.
Como o dinheiro do pré que cá recebo é pouco e só dá para
nada ou quase nada, e como agora tenho mais despesa com a alimentação, tenho de
cortar a pensão de 360 escudos que deixei ficar na Metrópole.
Já pedi, por conta, 500 escudos ao meu Pai. Espero
recebê-los na próxima Quarta-feira. Tenho andado “teso”, como já me canso de o referir, e não tenho necessidade
disso. Para quê? Para quando chegar à Metrópole ter mais uns cobres! A esta distância de tempo ainda, sei lá
se vou precisar deles! Sei lá se ainda poderei ir ‘bater com os ossos no mato’…
e uma bala perdida…
Há dias as Instalações Navais de Bissau precisavam de um
desenhador e eu fui oferecer-lhes os meus serviços mas, as minhas aptidões não
chegavam, por eles precisarem de um bom desenhador de máquinas.
Ontem, quando jantava com o meu camarada Torres, entrou-nos
porta adentro, o sargento Sousa com uma borracheira
de todo o tamanho, a convidar-nos para irmos com ele até ao “pilão”, “às garinas”; dizia ele.
Nós não estávamos com disposição e não aceitamos o convite.
Para além de termos de aturar a sua grande bebedeira, que
mal se aguentava em pé, eu fiquei escarmentado da primeira, e a última, vez que
fui ao “pilão”. O meu camarada contou
que também teve uma experiência mais ou menos parecida e dissemos-lhe, em modo
de brincadeira, para não ir porque podiam cortar-lhe a cabeça; ao que ele
respondeu:
- Eh, pá, desde que não me cortem a cabeça
da gaita!
O meu camarada e sócio da marmita, que é mais «velhinho», contou que certos camaradas,
vindos do ‘mato’, foram a este sítio e um deles não pagando “o frete à nharra”, esta lhe
disse, em termos de
maldição , que haveria de regressar à Metrópole esticado entre
tábuas. Aconteceu não a este mas a outro que, fazia parte do grupo, “lerpou” ao cair em cima de uma “semente do diabo”. A viatura que o
transportava, a ele e aos outros, despoletou uma mina anti carro, saltando
todos para fora da viatura que se desfez em pedaços, tendo este caído em cima
de uma mina anti pessoal colocada na berma da ‘picada’.
Uns meses depois, no regresso da Companhia a Bissau, em vésperas de embarcar
para a Metrópole, este grupo e outros que se lhes juntou, pela calada da noite, desenfiaram-se, saltando a cerca de arame farpado do quartel, entraram pelo “Pilão” adentro até à tabanca onde, uns meses antes, havia
sido proferida a imprecação e atearam fogo a quantas palhotas puderam.
Muito perto da meia-noite, seguia eu e o Torres a pé, pela
estrada de Santa Luzia, a caminho do quartel, quando, às tantas, ouvimos uma
voz muito impercetível a chamar, por mim:
- Ó António! António! Estou aqui! Tira-me
daqui!
Diz o Torres:
- Eh pá! É o sargento Sousa que deve estar pr’aqui
caído no ribeiro!
Descemos a muito custo e lá estava o
Sousa, com a bebedeira de há bocado, enfiado num buraco, cheio de água até à
cintura, a tentar agarrar-se a qualquer coisa sólida para sair.
Como na estrada passam sempre viaturas chamamos a pedir
ajuda e, com uma corda amarrada à cintura, lá conseguimos arrastar o Sousa para
a estrada metê-lo no jipe e leva-lo para o quartel. Eu e o Torres seguimos
noutro jipe, todos molhados.
No dia seguinte, ainda de ressaca, contou-nos que se
encostou a uma mangueira, árvore que dá um
fruto fibroso e muito saboroso, para mijar resvalou e lá foi ele mergulhar no
regato empestado de sapos.
Quando lhe perguntámos há quanto tempo estava ele ali
caído, disse que não se lembrava e até se tinha ido ou não ao “pilão”.
A última com ele foi há algum tempo atrás quando fomos os
quatro; eu, o Torres, o Sousa e a sua bebedeira, a um destes sítios − “às garinas” como ele dizia − situado nos
limites da cidade, mas ainda dentro desta.
O prostíbulo que o Sousa bem conhecia, está aquartelado numa
moradia recuada, ao fundo de uma rua escura e, pelo que vi, pouco frequentado,
com “cabritas”, (cabo-verdianas) à mistura com algumas “tugas” lambidas, “chantras fanadas e
chungosas”, do refugo das choldras
do Bairro Alto, do Intendente e dos
bares do Cais do Sodré que, escaparam às rusgas da «ramona», para não serem engavetadas
e irem parar ao chilindró; as
galdérias destes tugúrios de Lisboa aportam, ‘a toque de caixa’, às colónias, para saciar os ímpetos animalescos
da tropa macaca que, mal chegadas,
rameiras de profissão, começam logo a faturar. Mesmo assim, com todos estes predicados, estas nada tem a ver com
as “nharras” faniqueiras do “pilão”; sempre são “p…” da nossa terra. Enfim, uma coisa mais aparentemente decente
que de decência nada tem. Quanto ao resto, há sempre dúvidas.
Cada um “aviou-se”
à sua maneira e o Sousa é que não havia meio de se “aviar”. Depois de muito esperarmos, sai-me a “cabrita” de um corredor, espavorida aos tropeções e a berrar,
fazendo um escarcéu dos diabos.
Meia vestida, meia nua, a tropeçar nos panos que a cobria e
voltavam a cair de cada vez que bracejava, a esganiçada guinchava entre
palavrões e imprecações; ora em crioulo, ora em aportuguesado, − em “pretuguês” como a malta diz na gíria − que mal dava para entender:
- “Distrancâ-m di pé, bai cura bebidera,
caca di merda”! “Bai pa mato, malandru”! Saltâ-m fora di loja…! Ao mesmo tempo que
lhe arremessava o graveto ao chão que
antecipadamente teria recebido. − Porque também
aqui, ontem como hoje, é regra sem excepção; é, como em todo o lado: “mó na tchom dinheiru na mó”.
Rezingava, rezingava, por ventura já farta de lhe aturar a
bebedeira, e o Sousa com as calças na mão a cambalear, perdido de bêbado que
estava, caiu sobre um sofá velho, que pr’ali estava, e pegou a dormir. Grande escabeche
se fez ali e, eu e o meu camarada, já não sabíamos aonde é que nos havíamos de
meter.
Também não sei que deu na gaja. Pareceu-me que estava bêbeda, também. No fundo, até deu para a
gente se divertir. Ao Sousa, tivemos que lhe puxar as calças para cima e
trazê-lo em charola
para a rua apanhar ar. Acabamos por o trazer, amparando-o de
um lado e de outro, para o quartel, até à camarata dos sargentos. Aí,
deixámo-lo no limiar da porta e pirámo-nos.
No dia dois deste mês fui ao hospital tirar uma
micrografia, por causa desta dor no peito que há muito me ando a queixar.
Felizmente que não acusa nada. Não sei, então, o que será esta dor e o médico
da Companhia continua a receitar-me comprimidos e injeções.
O médico não se abre e começo a convencer-me que será, de
facto, a angústia, a ansiedade e toda esta pressão a que nós estamos sujeitos
e, ainda para agravar, a dificuldade em respirar este ar ,
carregado de poeiras, húmido, viscoso e pútrido.
Por transpirarmos muito temos de beber muita água sendo
este mais um problema grave a somar a todos os outros; é que esta não tem
qualidade, tem um sabor a lodo proveniente das bolanhas e frequentemente causa fortes diarreias e febres altas.
Agora tenho mais uma correspondente que se ofereceu para
minha madrinha de guerra. É irmã da
namorada do meu irmão, mais novo. A minha namorada já sabe porque são da mesma
terra. Para a tranquilizar e provar que a amo, ofereci-lhe uma aliança de prata.
Continuo a receber correspondência da madrinha de Soutelo. Estou à espera de resposta, de uma rapariga de
Braga, cuja direção me foi dada pelo meu irmão do meio.
O meu chefe encontra-se de licença na Metrópole e quem o
está a substituir é o primeiro-sargento Gonçalves.
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