quinta-feira, 9 de novembro de 2017

“lerpou” ao cair em cima de uma “semente do diabo”

  
        1967
11 de Setembro.
Segunda-feira, 22h00.

  

  Hoje de madrugada, quando me levantei para ir urinar, fui atacado de uma fortíssima febre. Transpirava e tremia terrivelmente que mal me segurava em pé. Às seis horas da manhã, já estava melhor. Segundo me disseram, esta febre, foi o princípio de paludismo.

Agora, desarranchei-me do rancho geral. Como à sociedade com o camarada e amigo Torres. Agora, a corneta já não toca para nós. Já não temos a preocupação das formaturas para o rancho.
        Encomendamos a vianda na pensão Central e comemos na secção onde trabalhamos. Só vamos para o quartel, à noite, para dormir.
O comer, “bianda”, como os nativos lhe chamam, é fornecido em marmitas de alumínio que nós compramos para o acondicionar no transporte até à secção. Pagamos, mensalmente, ‘600 pesos’, (600 escudos), cada um. Inclui o almoço e o jantar com prato de peixe, prato de carne e sopa. O pequeno-almoço, o pão e o vinho, é à nossa conta.
O dinheiro que recebo de volta por me ter desarranchado chega para isto e ainda sobra algum; pouco ou quase nada. Isto, também, porque vou comprar as coisas mais baratas à cantina da Manutenção Militar.
À hora do almoço e do jantar, à volta das casas que servem comida para fora, veem-se grandes filas de pretinhos e pretinhas com as marmitas da “bianda” à espera de vez para as encher.
Fazem uma algazarra tremenda, quando os mais atrasados não respeitam a ordem da fila metendo-se à frente para não chegarem atrasados com a “bianda” aos seus senhores.
Depois, da “bianda aviada”, é vê-los a correr num lufa-lufa por todos os cantos da cidade, descalços, com as marmitas à cabeça, um braço a segurar, outro, pendurado, a dar-a-dar, para chegarem depressa e saciarem a gula dos seus ‘amos’ e, com o que sobra, a sua.
É um hábito, 0 nativo carregar qualquer coisa, mesmo pequena que seja, à cabeça. Veem-se, pelas ruas da cidade e nos cafés, muitos miúdos, andrajosos, quase despidos e descalços, levarem à cabeça uma pequena bacia de esmalte ou alumínio contendo mancarra, (amendoim torrado), e apregoarem:
 - Branco, dá “patacão”! Compra “mancara a minino”!   
Alguns, já mais crescidos, quando lhe perguntámos se andam na escola, respondem:
 - “Minino cá ten escola”! “Mi cá ten o esperto nos cabeça”!

Agora tenho mais tempo para os meus desenhos. Ando, presentemente, a dedicar-me ao desenho de construção civil. Faço cópias e recebo explicações de um desenhador de construção civil que conheci na cidade através do sargento Laurentino que presta serviço na secção e é natural de Bissau.

Como o dinheiro do pré que cá recebo é pouco e só dá para nada ou quase nada, e como agora tenho mais despesa com a alimentação, tenho de cortar a pensão de 360 escudos que deixei ficar na Metrópole.      
Já pedi, por conta, 500 escudos ao meu Pai. Espero recebê-los na próxima Quarta-feira. Tenho andado “teso”, como já me canso de o referir, e não tenho necessidade disso. Para quê? Para quando chegar à Metrópole ter mais uns cobres! A esta distância de tempo ainda, sei lá se vou precisar deles! Sei lá se ainda poderei ir ‘bater com os ossos no mato’… e uma bala perdida…

Há dias as Instalações Navais de Bissau precisavam de um desenhador e eu fui oferecer-lhes os meus serviços mas, as minhas aptidões não chegavam, por eles precisarem de um bom desenhador de máquinas.

Ontem, quando jantava com o meu camarada Torres, entrou-nos porta adentro, o sargento Sousa com uma borracheira de todo o tamanho, a convidar-nos para irmos com ele até ao “pilão”, “às garinas”; dizia ele.
Nós não estávamos com disposição e não aceitamos o convite.
Para além de termos de aturar a sua grande bebedeira, que mal se aguentava em pé, eu fiquei escarmentado da primeira, e a última, vez que fui ao “pilão”. O meu camarada contou que também teve uma experiência mais ou menos parecida e dissemos-lhe, em modo de brincadeira, para não ir porque podiam cortar-lhe a cabeça; ao que ele respondeu:     
 - Eh, pá, desde que não me cortem a cabeça da gaita!
O meu camarada e sócio da marmita, que é mais «velhinho», contou que certos camaradas, vindos do ‘mato’, foram a este sítio e um deles não pagando “o frete à nharra”, esta lhe disse, em termos de maldição, que haveria de regressar à Metrópole esticado entre tábuas. Aconteceu não a este mas a outro que, fazia parte do grupo, “lerpou” ao cair em cima de uma “semente do diabo”. A viatura que o transportava, a ele e aos outros, despoletou uma mina anti carro, saltando todos para fora da viatura que se desfez em pedaços, tendo este caído em cima de uma mina anti pessoal colocada na berma da ‘picada’.       
Uns meses depois, no regresso da Companhia a Bissau, em vésperas de embarcar para a Metrópole, este grupo e outros que se lhes juntou, pela calada da noite, desenfiaram-se, saltando a cerca de arame farpado do quartel, entraram pelo “Pilão” adentro até à tabanca onde, uns meses antes, havia sido proferida a imprecação e atearam fogo a quantas palhotas puderam.

Muito perto da meia-noite, seguia eu e o Torres a pé, pela estrada de Santa Luzia, a caminho do quartel, quando, às tantas, ouvimos uma voz muito impercetível a chamar, por mim:
 - Ó António! António! Estou aqui! Tira-me daqui!
 Diz o Torres:
 - Eh pá! É o sargento Sousa que deve estar pr’aqui caído no ribeiro!
 Descemos a muito custo e lá estava o Sousa, com a bebedeira de há bocado, enfiado num buraco, cheio de água até à cintura, a tentar agarrar-se a qualquer coisa sólida para sair.
Como na estrada passam sempre viaturas chamamos a pedir ajuda e, com uma corda amarrada à cintura, lá conseguimos arrastar o Sousa para a estrada metê-lo no jipe e leva-lo para o quartel. Eu e o Torres seguimos noutro jipe, todos molhados.

No dia seguinte, ainda de ressaca, contou-nos que se encostou a uma mangueira,  árvore que dá um fruto fibroso e muito saboroso,   para mijar resvalou e lá foi ele mergulhar no regato empestado de sapos.
Quando lhe perguntámos há quanto tempo estava ele ali caído, disse que não se lembrava e até se tinha ido ou não ao “pilão”.
A última com ele foi há algum tempo atrás quando fomos os quatro; eu, o Torres, o Sousa e a sua bebedeira, a um destes sítios − “às garinas” como ele dizia − situado nos limites da cidade, mas ainda dentro desta.    
O prostíbulo que o Sousa bem conhecia, está aquartelado numa moradia recuada, ao fundo de uma rua escura e, pelo que vi, pouco frequentado, com “cabritas”, (cabo-verdianas) à mistura com algumas “tugas” lambidas, “chantras fanadas e chungosas”, do refugo das choldras do Bairro Alto, do Intendente e dos bares do Cais do Sodré que, escaparam às rusgas da «ramona», para não serem engavetadas e irem parar ao chilindró; as galdérias destes tugúrios de Lisboa aportam, ‘a toque de caixa’, às colónias, para saciar os ímpetos animalescos da tropa macaca que, mal chegadas, rameiras de profissão, começam logo a faturar. Mesmo assim, com todos estes predicados, estas nada tem a ver com as “nharras” faniqueiras do “pilão”; sempre são “p…” da nossa terra. Enfim, uma coisa mais aparentemente decente que de decência nada tem. Quanto ao resto, há sempre dúvidas. 
Cada um “aviou-se” à sua maneira e o Sousa é que não havia meio de se “aviar”. Depois de muito esperarmos, sai-me a “cabrita” de um corredor, espavorida aos tropeções e a berrar, fazendo um escarcéu dos diabos.
Meia vestida, meia nua, a tropeçar nos panos que a cobria e voltavam a cair de cada vez que bracejava, a esganiçada guinchava entre palavrões e imprecações; ora em crioulo, ora em aportuguesado, −  em “pretuguês” como a malta diz na gíria − que mal dava para entender:  
- “Distrancâ-m di pé, bai cura bebidera, caca di merda”! “Bai pa mato, malandru”! Saltâ-m fora di loja…! Ao mesmo tempo que lhe arremessava o graveto ao chão que antecipadamente teria recebido. − Porque também aqui, ontem como hoje, é regra sem excepção; é, como em todo o lado: “mó na tchom dinheiru na mó”.   
Rezingava, rezingava, por ventura já farta de lhe aturar a bebedeira, e o Sousa com as calças na mão a cambalear, perdido de bêbado que estava, caiu sobre um sofá velho, que pr’ali estava, e pegou a dormir. Grande escabeche se fez ali e, eu e o meu camarada, já não sabíamos aonde é que nos havíamos de meter.
Também não sei que deu na gaja. Pareceu-me que estava bêbeda, também. No fundo, até deu para a gente se divertir. Ao Sousa, tivemos que lhe puxar as calças para cima e trazê-lo em charola para a rua apanhar ar. Acabamos por o trazer, amparando-o de um lado e de outro, para o quartel, até à camarata dos sargentos. Aí, deixámo-lo no limiar da porta e pirámo-nos.

No dia dois deste mês fui ao hospital tirar uma micrografia, por causa desta dor no peito que há muito me ando a queixar. Felizmente que não acusa nada. Não sei, então, o que será esta dor e o médico da Companhia continua a receitar-me comprimidos e injeções.
O médico não se abre e começo a convencer-me que será, de facto, a angústia, a ansiedade e toda esta pressão a que nós estamos sujeitos e, ainda para agravar, a dificuldade em respirar este ar, carregado de poeiras, húmido, viscoso e pútrido.

Por transpirarmos muito temos de beber muita água sendo este mais um problema grave a somar a todos os outros; é que esta não tem qualidade, tem um sabor a lodo proveniente das bolanhas e frequentemente causa fortes diarreias e febres altas.

Agora tenho mais uma correspondente que se ofereceu para minha madrinha de guerra. É irmã da namorada do meu irmão, mais novo. A minha namorada já sabe porque são da mesma terra. Para a tranquilizar e provar que a amo, ofereci-lhe uma aliança de prata.
Continuo a receber correspondência da madrinha de Soutelo. Estou à espera de resposta, de uma rapariga de Braga, cuja direção me foi dada pelo meu irmão do meio.

O meu chefe encontra-se de licença na Metrópole e quem o está a substituir é o primeiro-sargento Gonçalves.

               


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