1967
21 de Julho
Sexta-feira, 20h00
Estou no café Avenida. Já bebi
o meu nescafé da ordem e daqui por
poucos minutos vou até ao cinema.
O que é que eu mais poço fazer?!
O que é que há mais para fazer?!
Ganhei 50 escudos, por fazer um
retrato a carvão da namorada de um furriel. É, fazendo-os em trocos, que vou ao
cinema.
Já vi este filme, «A Grande Corrida à Volta do Mundo», no
cinema Monumental, em Lisboa. Recordo-me
bem , acerca de ano e meio atrás, com três amigos, pela altura
do Natal; o Aníbal, o Marcelino e o Mário. Com bons atores, como: Black Edwards, Tony Curtis, Natalie Wood, Peter
Falk e Jack Lemmon, é um bom
filme cómico para rir de princípio ao fim e, hoje, como ando um pouco taciturno
será certo que mudarei de humor.
No caminho para o cinema, encontrei o furriel
para quem fiz o retrato. Convidou-me para ir com ele. Só que ele tinha bilhete
de primeiro balcão e eu para a frente, na plateia. Ele trocou os dois bilhetes
por dois primeiros balcões e pagou a diferença.
Esta semana “lerpei” com correio da minha namorada. Dos meus pais também não
recebo já há bastante tempo e das duas raparigas da terra vizinha, também não.
Quanto a estas, calhando, como dizem os alentejanos, a bronca deu-se ao verem
os seus nomes trocados.
Acabei de cumprimentar um
furriel que se me dirigiu e que conheci na Escola Prática do Serviço de
Material, em Sacavém.
Há dias, fiquei muito
surpreendido ao cruzar-me com o sargento Velez. Esta personagem é aquela que
uma vez me bradou: «Na
tropa não há colegas. Colegas são as putas!»
Na secção tem havido pouco
trabalho. O capitão é um mesquinhas e quando me vê parado, sem fazer nada,
arranja-me sempre qualquer mesquinhice para fazer. Isto, também, quando ele não
tem nada que fazer. Rabeia de um lado
para o outro e marra com tudo e nada.
Vejo agora que foi bem acertada a alcunha que lhe puseram.
Quando tem que fazer,
concentra-se de tal modo no trabalho que nem dá pela falta do pessoal que se desenfia.
O desenfiado número um é «o menino Carlinhos». Tem tanta sorte
que ninguém se atreve a tocar-lhe. Dizem, aqui, que está bem protegido. E deve
estar porque ele, ainda-por-cima, goza com o
pagode, não somente com os seus camaradas, como também, com os seus
superiores. Dizem as “bocas”: o que o
safa são os uísques à conta do Grande Hotel.
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