quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O que o safa são os uísques à conta do Grande Hotel


        1967
         21 de Julho  
 Sexta-feira, 20h00


    Estou no café Avenida. Já bebi o meu nescafé da ordem e daqui por poucos minutos vou até ao cinema.
O que é que eu mais poço fazer?! O que é que há mais para fazer?!
Ganhei 50 escudos, por fazer um retrato a carvão da namorada de um furriel. É, fazendo-os em trocos, que vou ao cinema.
Já vi este filme, «A Grande Corrida à Volta do Mundo», no cinema Monumental, em Lisboa. Recordo-me bem, acerca de ano e meio atrás, com três amigos, pela altura do Natal; o Aníbal, o Marcelino e o Mário. Com bons atores, como: Black Edwards, Tony Curtis, Natalie Wood, Peter Falk e Jack Lemmon, é um bom filme cómico para rir de princípio ao fim e, hoje, como ando um pouco taciturno será certo que mudarei de humor.
 No caminho para o cinema, encontrei o furriel para quem fiz o retrato. Convidou-me para ir com ele. Só que ele tinha bilhete de primeiro balcão e eu para a frente, na plateia. Ele trocou os dois bilhetes por dois primeiros balcões e pagou a diferença.

Esta semana “lerpei” com correio da minha namorada. Dos meus pais também não recebo já há bastante tempo e das duas raparigas da terra vizinha, também não. Quanto a estas, calhando, como dizem os alentejanos, a bronca deu-se ao verem os seus nomes trocados.

Acabei de cumprimentar um furriel que se me dirigiu e que conheci na Escola Prática do Serviço de Material, em Sacavém.
Há dias, fiquei muito surpreendido ao cruzar-me com o sargento Velez. Esta personagem é aquela que uma vez me bradou: «Na tropa não há colegas. Colegas são as putas!»

Na secção tem havido pouco trabalho. O capitão é um mesquinhas e quando me vê parado, sem fazer nada, arranja-me sempre qualquer mesquinhice para fazer. Isto, também, quando ele não tem nada que fazer. Rabeia de um lado para o outro e marra com tudo e nada. Vejo agora que foi bem acertada a alcunha que lhe puseram.  
Quando tem que fazer, concentra-se de tal modo no trabalho que nem dá pela falta do pessoal que se desenfia.
 O desenfiado número um é «o menino Carlinhos». Tem tanta sorte que ninguém se atreve a tocar-lhe. Dizem, aqui, que está bem protegido. E deve estar porque ele, ainda-por-cima, goza com o pagode, não somente com os seus camaradas, como também, com os seus superiores. Dizem as “bocas”: o que o safa são os uísques à conta do Grande Hotel.

 

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