19667
14 de Julho
Sexta-feira, 22h00
Estou de serviço à Ronda Ambulante
e está uma temperatura bafienta e ofegante.
Ao meu redor, debaixo do
alpendre que dá acesso às camaratas, ouve-se o vociferar de vozes e o bater das nocas dos dedos em cima das mesas dos camaradas que estão a jogar às
cartas.
Ainda não tocou a silêncio e 0s
ânimos estão muito exaltados.
O plantão da caserna, que é um
patusco, é o pior e está fora do jogo. Que faria se não estivesse. Isto é assim
todas as noites.
A singelo ou a dobrado, joga-se:
à bisca, à ‘lerpa’ e à sueca; ao burro e à vermelhinha; às copas e ao póquer;
aos dados e ao dominó; às damas e ao xadrez; ao berlinde e à carica; ao
chinquilho à pela e à bilharda. Quando se acaba o dinheiro, joga-se: o relógio
e o rádio; os anéis (e os dedos) e, até, o retrato da madrinha de guerra.
Batota em cima de batota. Só
falta a roleta, o
croupier ; faites vos jeux,
messieurs! e as girls. Uns enchem-se de dinheiro, que emprestam
a juros ao dia; outros, as azêmolas, andam a “lerpar” o resto dos dias que faltam para o pré.
Está uma temperatura quente,
ofegante e húmida. Não chove mas, lá longe, troveja e relampeja. O céu, em uma
fração de segundos, num ato contínuo, é rasgado e iluminado por grandes linhas
de raios ziguezagueantes que se entrecruzam desenhando no firmamento um sem-fim
infinito de trajetórias: na horizontal; na diagonal, oblíquas e verticais em
direção à terra, à mistura com um estrondeante concerto de medonhos trovões,
precedidos de enormes clarões, em tons de azul-cinza, que se abatem sobre a
savana, como nunca vi.
Não fosse o temor e o respeito
que estes fenómenos da natureza incutem, poderia dizer-se que seria um espetáculo
de som e luz para os nossos sentidos, superior a qualquer evento coreográfico
produzido pelo homem.
Hoje não recebi correspondência
como esperava. A minha namorada escreve-me todas as Quartas-feiras. A semana
passada ofereci-lhe um colar de fantasia e um lenço. Ficou muito contente,
segundo diz na sua carta, e, está à espera que eu faça anos para me oferecer
uma prenda, também.
Tenho escrito para duas raparigas
de uma terra vizinha da minha e da última vez, involuntariamente, troquei-lhes
os nomes. Só dei pelo engano depois de pôr a correspondência no correio.
Na secção há mais dois novos
sargentos que vêm substituir outros dois que se vão embora.
Desenhei o retrato de um deles e
fui muito criticado pelos meus camaradas porque o retrato não se parecia com a
pessoa, embora, a pessoa em questão, tivesse gostado.
O comer tem sido muito mau
ultimamente, porque está a comer do nosso
rancho uma Companhia que se vai embora.
O que mais comemos é massa e arroz que mais parece comida de preto. Só é diferente quando de manhã, ao
pequeno-almoço, nos obrigam a descascar “lampanas”. Aí, temos “lampanas” com “lampanas”, que o orçamento é o mesmo e não chega pra carne.
Carne, essa é-nos frequentemente oferecida, gorda e suculenta, recheada dentro
dos canudos do macarrão, ou a flutuar na água da sopa que, com algum cerimonial
e muito despercebidamente, cada um aparta para o bordo do prato disfarçando o
melhor que pode, para não estragar a refeição do camarada do lado.
Um dia destes, não sendo a primeira vez, nem a segunda, e
nem á de ser a última, fomos surpreendidos à mesa com os enlatados do ‘mato’ começando logo todos a torcer o
nariz. Um camarada negro, cheio de humor, como que a desanuviar o ambiente e a
modos de gozo com as caretas do branco, ao abrir uma lata de conserva diz:
«Eh! Branco tem mesmo o esperto nos cabeça, pá!
Consegue meter sardinha dentro dos lata fechada, pá»!
Dizem as “bocas” que o gerente de rancho, um sargento lateiro, chicalhão, está a acabar a comissão, para se ir
embora, e tem que arrecadar mais umas
“massas” para pagar os andares
comprados na Metrópole.
Normalmente, os gerentes das
messes e do rancho geral são eleitos por concurso de seis em seis meses. São
sempre os mesmos e até se guerreiam para ficar eternamente no lugar. Chegam
mesmo a pagar somas chorudas, àqueles que ganham os concursos, para continuarem
a gerir.
Quando o rancho é mau, e
continuando mau, começam as más-línguas a ratar com as “bocas”, do costume: «é mais
um andar, na capital do Império, pra pagar».
Tenho lido bastante e desenhado
menos. Acabei de ler mais uma biografia de Leonardo
da Vinci.
Ando a fazer um desenho para
oferecer ao Movimento Nacional Feminino
evocando a sua ação benemérita.
Segundo me diz o meu amigo
Mário, o desenho que fiz para o concurso do Diário Popular ficou sem efeito.
Não entendi muito bem a sua explicação. Creio que terá havido uma confusão
qualquer da sua parte.
Ontem tive uma pequena rixa com
o meu camarada e amigo, colega de serviço da secção, «o menino Carlinhos». Zangámo-nos mas passou depressa. Já me
convidou para, no próximo dia 18, ir fazer o mesmo trabalho que fiz no mês
passado na Associação Comercial.
Sem comentários:
Enviar um comentário