quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Só falta a roleta, o croupier e as girls



        19667
14 de Julho
Sexta-feira, 22h00


 
    Estou de serviço à Ronda Ambulante e está uma temperatura bafienta e ofegante. 
        Ao meu redor, debaixo do alpendre que dá acesso às camaratas, ouve-se o vociferar de vozes e o bater das nocas dos dedos em cima das mesas dos camaradas que estão a jogar às cartas.
        Ainda não tocou a silêncio e 0s ânimos estão muito exaltados.
        O plantão da caserna, que é um patusco, é o pior e está fora do jogo. Que faria se não estivesse. Isto é assim todas as noites. 
       A singelo ou a dobrado, joga-se: à bisca, à ‘lerpa’ e à sueca; ao burro e à vermelhinha; às copas e ao póquer; aos dados e ao dominó; às damas e ao xadrez; ao berlinde e à carica; ao chinquilho à pela e à bilharda. Quando se acaba o dinheiro, joga-se: o relógio e o rádio; os anéis (e os dedos) e, até, o retrato da madrinha de guerra.  
       Batota em cima de batota. Só falta a roleta, o croupier ; faites vos jeux, messieurs! e as girls. Uns enchem-se de dinheiro, que emprestam a juros ao dia; outros, as azêmolas, andam a “lerpar” o resto dos dias que faltam para o pré.
       Está uma temperatura quente, ofegante e húmida. Não chove mas, lá longe, troveja e relampeja. O céu, em uma fração de segundos, num ato contínuo, é rasgado e iluminado por grandes linhas de raios ziguezagueantes que se entrecruzam desenhando no firmamento um sem-fim infinito de trajetórias: na horizontal; na diagonal, oblíquas e verticais em direção à terra, à mistura com um estrondeante concerto de medonhos trovões, precedidos de enormes clarões, em tons de azul-cinza, que se abatem sobre a savana, como nunca vi.
       Não fosse o temor e o respeito que estes fenómenos da natureza incutem, poderia dizer-se que seria um espetáculo de som e luz para os nossos sentidos, superior a qualquer evento coreográfico produzido pelo homem.
Hoje não recebi correspondência como esperava. A minha namorada escreve-me todas as Quartas-feiras. A semana passada ofereci-lhe um colar de fantasia e um lenço. Ficou muito contente, segundo diz na sua carta, e, está à espera que eu faça anos para me oferecer uma prenda, também.
       Tenho escrito para duas raparigas de uma terra vizinha da minha e da última vez, involuntariamente, troquei-lhes os nomes. Só dei pelo engano depois de pôr a correspondência no correio.
Na secção há mais dois novos sargentos que vêm substituir outros dois que se vão embora.
Desenhei o retrato de um deles e fui muito criticado pelos meus camaradas porque o retrato não se parecia com a pessoa, embora, a pessoa em questão, tivesse gostado.
       O comer tem sido muito mau ultimamente, porque está a comer do nosso rancho uma Companhia que se vai embora. O que mais comemos é massa e arroz que mais parece comida de preto. Só é diferente quando de manhã, ao pequeno-almoço, nos obrigam a descascar “lampanas”. Aí, temos “lampanas” com “lampanas”, que o orçamento é o mesmo e não chega pra carne. Carne, essa é-nos frequentemente oferecida, gorda e suculenta, recheada dentro dos canudos do macarrão, ou a flutuar na água da sopa que, com algum cerimonial e muito despercebidamente, cada um aparta para o bordo do prato disfarçando o melhor que pode, para não estragar a refeição do camarada do lado.
       Um dia destes, não sendo a primeira vez, nem a segunda, e nem á de ser a última, fomos surpreendidos à mesa com os enlatados do ‘mato’ começando logo todos a torcer o nariz. Um camarada negro, cheio de humor, como que a desanuviar o ambiente e a modos de gozo com as caretas do branco, ao abrir uma lata de conserva diz: 
       «Eh! Branco tem mesmo o esperto nos cabeça, pá! Consegue meter sardinha dentro dos lata fechada, pá»!      
        Dizem as “bocas” que o gerente de rancho, um sargento lateiro, chicalhão, está a acabar a comissão, para se ir embora, e tem que arrecadar mais umas “massas” para pagar os andares comprados na Metrópole.
        Normalmente, os gerentes das messes e do rancho geral são eleitos por concurso de seis em seis meses. São sempre os mesmos e até se guerreiam para ficar eternamente no lugar. Chegam mesmo a pagar somas chorudas, àqueles que ganham os concursos, para continuarem a gerir.
        Quando o rancho é mau, e continuando mau, começam as más-línguas a ratar com as “bocas”, do costume: «é mais um andar, na capital do Império, pra pagar».
        Tenho lido bastante e desenhado menos. Acabei de ler mais uma biografia de Leonardo da Vinci.
        Ando a fazer um desenho para oferecer ao Movimento Nacional Feminino evocando a sua ação benemérita.
        Segundo me diz o meu amigo Mário, o desenho que fiz para o concurso do Diário Popular ficou sem efeito. Não entendi muito bem a sua explicação. Creio que terá havido uma confusão qualquer da sua parte.
        Ontem tive uma pequena rixa com o meu camarada e amigo, colega de serviço da secção, «o menino Carlinhos». Zangámo-nos mas passou depressa. Já me convidou para, no próximo dia 18, ir fazer o mesmo trabalho que fiz no mês passado na Associação Comercial.
 

Sem comentários:

Enviar um comentário