1968
03 de Fevereiro
Sábado, 13h00
Secção. Ontem foi «dia grande», nesta terra. Veio cá, em visita presidencial, o Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás. Vi-o passar, todo engalanado, empoleirado num jipe, todo embandeirado, pela avenida central abaixo, em desfile.
A festa começou uns dias antes, com as gentes nativas que
afluiu à cidade de todos os cantos da província. É mais que evidente que toda
esta massa negra, empunhando bandeirinhas tremulantes, veio a expensas do
governo local que a recrutou através dos chefes distritais e chefes tribais. A exemplo de como se faz na Metrópole aquando das
manifestações pró regime. A parte Norte da cidade, onde está situado o palácio
do Governador da Província, está envolvida, apesar do calor, em uma espécie de
penumbra cinzenta e brilhante causada pelo efeito do sol e da ténue neblina que
vem subindo do canal do rio Geba.
Junta-se aqui, à frente do Palácio, à volta do Monumento ao
Esforço da Raça, esta massa pululante composta de muitas tribos e etnias, como:
Balantas; Fulas; Mandingas; Bijagós;
Papéis; Manjacos; Bailundos e sei lá quantas raças mais… são tantas!
Montaram arraial, com tendas para exposição e venda de
artesanato. Exibem os seus cantares acompanhados com rústicos instrumentos
musicais fabricados pelos próprios; as suas danças e rituais com trajes,
tipicamente tradicionais de cores vivas e berrantes, ornados com artísticos
artefactos; os seus corpos pintados com tatuagens, rústicas e bizarras, de
relevos sinuosos, formando desenhos artísticos gravados na pele visível da sua
nudez. Tal moldura humana provoca um efeito pictórico digno da paleta do melhor
artista plástico.
Muitos invadem os cafés e esplanadas a venderem peles de jiboia,
de boi e até de jacaré; esculturas de madeira e marfim; saguins e papagaios;
vários artigos em pele de cobra e crocodilo; instrumentos musicais feitos por
si; vestes tribais: pingalins e chicotes, etc., etc.
Neste ambiente de festa, foram condecorados em parada,
junto ao Palácio, alguns militares por feitos heroicos.
A cidade é pequena e está à cunha. A festa, diz-se, vai
durar oito dias. Enquanto durar e cá estiver o Chefe de Estado, a tropa tem de
estar nos quartéis, ao recolher, para ocaso de haver um eventual ataque
terrorista.
Consta-se, pelos cafés e esplanadas, nas conversas de «passa-palavra», que quando o Sr.
Presidente da República espetava a medalha no peito de um herói e ao mesmo
tempo lhe louvava o feito heroico arriscando a vida pela Pátria, este ter-lhe-á
sussurrado ao ouvido:
Ó senhor! Pela
Pátria uma ova! Estou aqui porque me obrigaram e se mato é para não ser morto!
Sem comentários:
Enviar um comentário