sábado, 25 de novembro de 2017

Ó senhor! Pela Pátria uma ova!

 
        1968
03 de Fevereiro
Sábado, 13h00



       Secção. Ontem foi «dia grande», nesta terra. Veio cá, em visita presidencial, o Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás. Vi-o passar, todo engalanado, empoleirado num jipe, todo embandeirado, pela avenida central abaixo, em desfile.
         A festa começou uns dias antes, com as gentes nativas que afluiu à cidade de todos os cantos da província. É mais que evidente que toda esta massa negra, empunhando bandeirinhas tremulantes, veio a expensas do governo local que a recrutou através dos chefes distritais e chefes tribais. A exemplo de como se faz na Metrópole aquando das manifestações pró regime. A parte Norte da cidade, onde está situado o palácio do Governador da Província, está envolvida, apesar do calor, em uma espécie de penumbra cinzenta e brilhante causada pelo efeito do sol e da ténue neblina que vem subindo do canal do rio Geba.
        Junta-se aqui, à frente do Palácio, à volta do Monumento ao Esforço da Raça, esta massa pululante composta de muitas tribos e etnias, como: Balantas; Fulas; Mandingas; Bijagós; Papéis; Manjacos; Bailundos e sei lá quantas raças mais… são tantas!
        Montaram arraial, com tendas para exposição e venda de artesanato. Exibem os seus cantares acompanhados com rústicos instrumentos musicais fabricados pelos próprios; as suas danças e rituais com trajes, tipicamente tradicionais de cores vivas e berrantes, ornados com artísticos artefactos; os seus corpos pintados com tatuagens, rústicas e bizarras, de relevos sinuosos, formando desenhos artísticos gravados na pele visível da sua nudez. Tal moldura humana provoca um efeito pictórico digno da paleta do melhor artista plástico.
        Muitos invadem os cafés e esplanadas a venderem peles de jiboia, de boi e até de jacaré; esculturas de madeira e marfim; saguins e papagaios; vários artigos em pele de cobra e crocodilo; instrumentos musicais feitos por si; vestes tribais: pingalins e chicotes, etc., etc.
        Neste ambiente de festa, foram condecorados em parada, junto ao Palácio, alguns militares por feitos heroicos.
        A cidade é pequena e está à cunha. A festa, diz-se, vai durar oito dias. Enquanto durar e cá estiver o Chefe de Estado, a tropa tem de estar nos quartéis, ao recolher, para ocaso de haver um eventual ataque terrorista.
        Consta-se, pelos cafés e esplanadas, nas conversas de «passa-palavra», que quando o Sr. Presidente da República espetava a medalha no peito de um herói e ao mesmo tempo lhe louvava o feito heroico arriscando a vida pela Pátria, este ter-lhe-á sussurrado ao ouvido:
        Ó senhor! Pela Pátria uma ova! Estou aqui porque me obrigaram e se mato é para não ser morto!

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