1968
20 de Fevereiro
Terça-feira, 14h00
O nosso major David
veio, esta manhã, despedir-se da malta. O capitão Campos, sem o exteriorizar,
me pareceu ficar muito contente com a sua ida, pois vai continuar a ser o chefe
na primeira pessoa com aquele seu jeito de rabo alçado e dedo no ar.
Com o major, como seu superior hierárquico, ele tinha
abrandado o seu frenesim, julgando-se preterido. Mas, agora, já arrebitou o rabo outra vez, e voltou de novo a ser o mesmo mexelhão que era, embora por pouco tempo, felizmente, ou infelizmente. Vamos ver.
Parece inacreditável mas é verdade. E, esta verdade, quanto
a mim, é uma vergonha para as nossas tropas. Pior, ainda mais, para quem as
comanda.
Na noite do dia 18 para 19 deste mês, os terroristas
bombardearam com armas pesadas a Base Aérea nº. 12, (Campo da Aviação
Civil e Militar), em Bissalanca, a oito quilómetros de Bissau.
Segundo ouvi, houve alguns danos materiais nas pistas de
aterragem e não houve mortos nem feridos. Mas, a verdade nunca se sabe. Já ouvi
uma segunda versão de que houve um morto e cinco feridos graves, para além de
algumas aeronaves militares danificadas. Até isto acalmar, com certeza vão
haver outras versões.
Quanto a mim, para chegar a este ponto, continuo a dizer
que é uma vergonha. Nas nossas barbas…!
Ontem recebi uma carta da madrinha de guerra Aida com a sua fotografia. Já há muito tempo que
não me escrevia e já tinha perdido as esperanças.
Hoje ia para comprar uma prenda para oferecer à minha namorada
e acabei por a não comprar por me indispor com a funcionária que me atendeu.
A prenda em questão não me agradou e o preço era elevado
para a minha carteira. A funcionária em vez de me persuadir quis convencer-me à
viva força que, por a ter maçado, estava na obrigação de lhe comprar o objeto.
Já há muito tempo que não recebo correspondência da Lupe.
Confesso que me sinto apreensivo e preocupado não apenas por sentir a falta das
suas cartas com palavras cheias de ânimo, amor e conforto, que me ajudam a
suportar esta cruz, mas também, por nós mantermos, muitas vezes, um diálogo
desfavorável hás razões que movem a continuação desta guerra.
Inevitavelmente, quase sempre, comentámos por palavras com
sentidos diversos, dentro do contexto de frases, colocadas ao acaso, tocadas
pelo amor e a paixão, que o sentimento de Espanha, e até de toda a Europa, é de
que Portugal, já à muito tempo, deveria ter tido a coragem de entregar as
colónias.
Se não estou muito
enganado, Deus queira que esteja, as nossas cartas poderão estar a ser intercetadas
pela PIDE.
Têm-me comentado
alguns camaradas de confiança que, já tem acontecido muitas vezes e até a eles
próprios, muita correspondência fica retida acabando sem destino, por ser
correspondência internacional, sendo natural que dentro de frases apaixonadas
se digam algumas verdades que não convém passar fronteiras.
Agentes daquela Polícia estão postados no SPM e, até, nos
próprios Correios Públicos, a espiar e a subtrair correspondência cujos
conteúdos não sejam favoráveis à ordem estabelecida.
A Lupe é uma boa amiga que tenho. Escreve muito bem, sabe
compreender e fazer-me compreender. Quando a sua correspondência tarda, começo
a sentir falta da sua leitura reconfortante.

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